Milhares de pessoas sem teto estão reunidas desde a noite de terça-feira na conhecida avenida dos Campos de Marte de Porto Príncipe, cujas praças e jardins se viram inundadas por uma enxurrada de famílias à espera de ajuda. A avenida tem um cheiro insuportável de pó e urina e, com o passar das horas e o forte calor, a situação só piora. Algumas pessoas estão bebendo água poluída das fontes públicas.
A capital do Haiti virou um gigantesco campo de refugiados, onde milhares de flagelados gritam ao mundo pedindo água, comida e medicamentos. Sujos, feridos e desesperados, os haitianos improvisaram toldos com pedaços de tecido para se proteger e olham insistentemente para o céu à espera de aviões que venham socorrê-los e ajudá-los a começar do zero.
Vítima do tremor de 7.3 graus de magnitude na escala Richter que atingiu o país na última terça-feira, Marie Denise, mãe de quatro crianças, diz sentir um grande peso na alma. "Não sabemos o que dizer a nossos filhos." A enfermeira Clarisse, de 30 anos, diz que está com medo de dormir nas casas semidestruídas. "Se começar a chover, isso será terrível. Não temos onde nos refugiar."
O haitiano Milien Roudy, deitado num jardim destruído, e acompanhado da mulher e das duas filhas, que não comem há 24 horas, lamenta. "O Haiti voltou a ser hoje um povo que não conhece os finais felizes."
Unidas pela desgraça, as vítimas contam suas histórias que, no fundo, é apenas uma: a casa se afundou debaixo de seus pés, uma parte da família se salvou por milagre e alguns de seus entes queridos, não. Assim o tempo parece passar mais rápido.
A comunidade internacional começou a ajudar o Haiti e os primeiros aviões com equipes de resgate, alimentos e medicamentos chegaram na quarta-feira a Porto Príncipe. Milhares de pessoas ainda estão sob os escombros, que bloqueiam inúmeras ruas do centro da cidade.
Sentados em cadeiras resgatadas das ruínas de uma casa, um grupo de idosos sequer tem ânimo para conversar e mantém o olhar perdido na multidão, que cresce conforme passam as horas. O cenário de devastação das ruas de Porto Príncipe pode ser resumido com a frase de Fortune Mynusse, de 75 anos: "Quando se vê tantas crianças mortas, a gente pensa que o destino se equivocou muito."
Haitianos esperam por ajuda
O universitário Laurente, de 22 anos, apontando na direção do Palácio Nacional e das sedes dos ministérios, todos eles desabados pelo terremoto, diz : "Não temos um Estado para nos ajudar."
"Se a comunidade internacional quiser ajudar o Haiti realmente, deveria nos dar dinheiro diretamente e não ao governo", alega James, que tenta organizar um acampamento familiar de quase 50 pessoas. Ele sofre a falta da irmã de 6 anos, sepultada nos escombros de sua casa. Com a ajuda de seus irmãos, o jovem estudante de 21 anos saqueou um supermercado para conseguir arroz e água e está racionando as porções com muito cuidado, ante o olhar desesperado de outras famílias, que não têm o que comer.
O funcionário público Clement disse que "em mais de 24 horas, ninguém, nem a ONU nem nenhuma autoridade, concedeu ajuda como oferecer um copo d´água".
Cheiro de urina e escombros tomam conta da capital do Haiti
Milhares de pessoas sem teto passam a noite nas ruas à espera de ajuda