"O governo afirma que seus membros, as Forças Armadas, a Polícia e o grande povo do Egito estão unidos para combater o complô terrorista tramado pela Irmandade Muçulmana", informou o gabinete do primeiro-ministro, Hazem al Beblaui. Diante da escalada de mortes, que desperta temores de que o país mergulhe no caos, os Estados Unidos fizeram um novo apelo para que não seja empregada força excessiva contra os manifestantes, enquanto os europeus estudam "a adoção de medidas" para garantir a segurança. A Alemanha informou que pretende revisar as relações diplomáticas com Cairo.
Na capital egípcia, fortemente patrulhada pelo Exército e por comitês populares partidários do governo, era possível ouvir tiros de armas automáticas em diferentes bairros, principalmente em torno da Praça Ramsés, onde milhares de manifestantes da Irmandade Muçulmana estavam reunidos. Os corpos de pelo menos 39 pessoas foram enfileirados em mesquitas do Cairo.
Na noite desta sexta-feira, a polícia cercou a mesquita de Al-Fath, onde estão vários militantes islâmicos partidários de Mursi. "Milhares de pessoas estão cercadas na mesquita e os disparos na região ocorrem há mais de uma hora, sem cessar", informou por e-mail o Partido da Justiça e da Liberdade, braço político da Irmandade Muçulmana. Um alto oficial, citado pela agência oficial de notícias Mena, afirmou que "elementos armados atiraram contra as forças da ordem a partir das mesquita" de Al-Fath.
O Partido da Liberdade e da Justiça afirma que há 130 mortos apenas na capital, e segundo fontes de segurança, 31 pessoas morreram em diferentes províncias do Egito. Em Suez, cinco pessoas foram mortas durante a noite pelas forças de ordem e dezenas ficaram feridas durante uma manifestação durante o toque de recolher. Tiros também ocorreramem outras grandes cidades do país onde os partidários de Mursi protestaram, como Alexandria, Beni Sueif e Fayum, assim como na cidade turística de Hurghada, às margens do Mar Vermelho.
O grupo islâmico Aliança contra o Golpe de Estado pediu que as manifestações desta sexta-feira fossem interrompidas após as últimas orações do dia, mas convocou seus seguidores a protestar diariamente. "As manifestações de hoje terminarão com as últimas orações da noite, que serão seguidas de orações pelos mortos", afirmou Gehad al-Haddad, porta-voz do movimento.
Laila Musa, outra porta-voz do mesmo movimento, denunciou a prisão de seguidores de Mursi antes dos protestos desta sexta, entre os quais há pelo menos dois ex-membros do Parlamento. Já o Tamarrod, movimento que promoveu as gigantescas manifestações pela destituição de Mursi, pediu que os egípcios formem "comitês populares" para defender o país do que ele chama de "terrorismo" da Irmandade Muçulmana, à qual pertence Mursi. As autoridades decretaram estado de emergência durante um mês na quarta e um toque de recolher na metade do país entre 19h e 6h.
Os EUA pediram nesta sexta-feira que o Egito não recorra à "força letal" contra manifestantes pacíficos. "Dissemos claramente que os egípcios têm o direito universal de se reunir e se expressar livremente, inclusive durante manifestações pacíficas", escreveu a porta-voz do departamento de Estado Jennifer Psaki. Na quinta, o presidente, Barack Obama, havia anunciado o cancelamento dos exercícios militares conjuntos com o Egito, após condenar "energicamente" a repressão, mas sem chegar a cortar uma vultosa ajuda financeira ao Cairo.
O presidente francês, François Hollande, e a chanceler alemã, Angela Merkel, pediram nesta sexta uma resposta unificada europeia urgente para a crise egípcia. O mandatário francês e a primeira-ministra alemã pediram "que os ministros das Relações Exteriores da União Europeia se reúnam rapidamente na próxima semana para analisar a cooperação entre a União Europeia e o Egito e elaborem respostas comuns".
Já o rei Abdallah da Arábia Saudita manifestou apoio às autoridades egípcias "contra o terrorismo" e advertiu para o perigo de "intromissões" nos assuntos internos do Cairo. A Jordânia também manifestou o seu apoio ao governo egípcio em sua luta para combater o terrorismo.
Centenas de pessoas participaram de manifestações convocadas por grupos islamitas em Cartum, Amã, Rabat, Jerusalém Oriental e na Cisjordânia para denunciar "o golpe de Estado" contra Mohamed Mursi. Nesta sexta, a Coalizão pró-Mursi condenou os ataques de islamitas contra igrejas cristãs no país, mas aproveitou para acusar alguns cristãos de apoiar a derrubada do primeiro presidente democraticamente eleito no país. "Embora alguns líderes coptas tenham apoiado ou, inclusive, participado do golpe, este tipo de ataques não se justifica", indicou.