A crise habitacional levou os principais sindicatos da Espanha a convocar uma greve geral para 11 de novembro. UGT e CCOO anunciaram a paralisação de 24 horas em meio a uma onda de protestos contra o aumento dos aluguéis, a falta de moradias acessíveis e os despejos. A mobilização ocorrerá pouco mais de duas semanas antes das eleições gerais antecipadas, marcadas para 29 de novembro.
A convocação ocorre após semanas de manifestações e acampamentos impulsionados pelo despejo de Maricarmen Abascal, de 87 anos. Retirada em 23 de setembro do apartamento onde vivia havia mais de sete décadas, em Madri, ela permaneceu internada depois de sofrer ansiedade e esgotamento. Maricarmen morreu na quarta-feira, 7 de outubro, e se tornou símbolo dos protestos pela moradia. A causa da morte não foi divulgada.
Na Puerta del Sol, um dos principais pontos turísticos da capital, manifestantes mantêm um acampamento para pressionar as autoridades por medidas que ampliem a oferta de imóveis e reduzam o peso dos aluguéis sobre as famílias. As mobilizações se espalharam por outras cidades.
A habitação escalou na preocupação do trabalhador depois que o Congresso rejeitou, no início de outubro, dois decretos do governo com medidas relacionadas à proteção de inquilinos, aos despejos e ao controle dos aluguéis. A derrota parlamentar contribuiu para o fim antecipado da legislatura e para a convocação das eleições.
Oferta insuficiente
Por trás dos protestos está um problema que se acumulou durante anos: a oferta de moradias não acompanha a demanda em regiões onde a população e a procura por imóveis cresceram. Madri e outras grandes cidades estão entre as áreas mais afetadas, com preços elevados para compra e aluguel.
Dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) mostram o impacto entre os mais jovens. Em 2025, 44,3% das pessoas de 26 a 34 anos ainda viviam com os pais. Entre elas, 47,3% disseram que o principal motivo era não ter condições financeiras para comprar ou alugar uma residência.
A dificuldade não se limita a quem procura comprar um imóvel. Entre as pessoas com 16 anos ou mais que buscaram uma residência em 2025, mas não conseguiram mudar de endereço, quase sete em cada dez apontaram o preço excessivo como principal obstáculo. Na Comunidade de Madri, 10,2% da população havia procurado uma casa sem conseguir se mudar.
O governo espanhol calcula que o país tenha um déficit de centenas de milhares de moradias, que pode chegar a 1 milhão de unidades até 2028 se a construção não acompanhar a demanda. Entre os fatores apontados por especialistas estão a dificuldade de ampliar a oferta, a escassez de mão de obra na construção, a concentração populacional nos grandes centros e o avanço dos aluguéis de curta duração em áreas de maior procura.
Aluguel pesa no orçamento
O custo da moradia também compromete uma parcela elevada da renda das famílias. Segundo dados citados pelo governo espanhol a partir do Eurostat, 26,8% dos domicílios que vivem de aluguel a preços de mercado destinavam mais de 40% da renda ao pagamento da moradia em 2025. A proporção caiu em relação aos anos anteriores, mas ainda ficou acima da média de 18,6% registrada na União Europeia.
Os preços de venda também avançaram. Segundo o Instituto Nacional de Estatística, o valor das moradias subiu 12,9% em um ano no quarto trimestre de 2025, ritmo superior ao da inflação no período.
A escassez de imóveis acessíveis alimenta uma disputa sobre as causas do problema. Movimentos de inquilinos responsabilizam, entre outros fatores, a especulação imobiliária, os grandes investidores e o crescimento do aluguel turístico. Especialistas, por outro lado, destacam que a expansão da oferta é limitada por questões urbanísticas, falta de terrenos e capacidade de construção, além da concentração da demanda nas grandes cidades.
Pressão sobre o governo
A pressão levou o governo de Pedro Sánchez a anunciar novas medidas para ampliar a oferta de habitação acessível e reforçar a proteção de inquilinos. Um decreto publicado em setembro prevê, entre outras ações, mecanismos para aumentar a oferta em áreas de maior pressão, ampliar garantias para locatários e estabelecer regras para contratos de temporada e aluguel de quartos.
A questão, porém, permanece no centro de uma disputa política que ganhou força às vésperas das eleições. A greve geral de 11 de novembro deverá levar às ruas a reivindicação por salários capazes de acompanhar o custo da moradia e acesso a habitação considerada digna, transformando a crise habitacional em um dos principais temas da campanha eleitoral.