Nos Estados Unidos, o The New York Times publicou um longo artigo no qual revela o conteúdo dos documentos. Segundo o jornal, eles oferecem "um olhar sem precedentes sobre as negociações e bastidores realizadas em embaixadas ao redor do mundo, e visões brutalmente claras de líderes estrangeiros e avaliações francas de ameaças nucleares e terroristas". Alguns destes documentos são muito recentes, pois datam do "mês de fevereiro", acrescentou o New York Times.
Segundo os documentos, publicados ainda pelos jornais The Guardian (Inglaterra), El País (Espanha), o Le Monde (França) e a revista alemã Der Spiegel, o rei Abdullah da Arábia Saudita teria pressionado os Estados Unidos a atacarem o Irã para destruir o programa nuclear daquele país. Relatórios de embaixadas diplomáticas no Oriente Médio dão conta das "frequentes exortações aos EUA para atacar o Irã e por um fim ao seu programa de armas nucleares", segundo diz em 17 de abril de 2008 o embaixador saudita nos Estados Unidos, Adel al Khubeir, citado por documentos de embaixadas americanas.
O monarca saudita teria pedido que os Estados Unidos "cortassem a cabeça da serpente" e afirmou que trabalhar com Washington para contrabalançar a influência iraniana no Iraque era "uma prioriedade estratégica para o rei e seu governo". As autoridades sauditas não quiseram fazer comentários a respeito.
O jornal francês Le Monde também começou a publicar pela internet trechos do conteúdo de informes diplomáticos "secretos" ou "confidenciais" também relativos à questão nuclear iraniana, um dos temas sensíveis tratados nos documentos. "Este programa deve ser detido", insistiu o rei do Bahrein, Hamad ben Isa Al Jalifa, em 1º de novembro de 2009, ao receber o general americano Davis Petraes, segundo o documento citado pelo Le Monde. "O perigo de deixá-lo seguir é maior que o de detê-lo", acrescentou, ainda em alusão ao programa nuclear iraniano.
Segundo um documento do Wikileaks publicado pelo jornal, Israel teria pressionado os Estados Unidos a adotar uma posição mais firme com relação ao Irã em dezembro de 2009, ao afirmar que a estratégia americana de negociação com Teerã "não funcionava".
Um telegrama americano, obtido pelo WikiLeaks e analisado pelo Le Monde, relata uma conversa de 1º de dezembro de 2009 entre Amos Gilad, diretor de assuntos políticos-militares do Ministério da Defesa israelense, e Ellen Tauscher, vice-secretária de Estado americana. "Olhando em sua bola de cristal", escreveu a diplomata americana, "Gilad diz que não é certo que o Irã tenha decidido fabricar uma arma nuclear, mas que o Irã está 'determinado' a ter a opção de construir uma".
Na diplomacia do presidente Barack Obama, "o compromisso estratégico com o Irã", "é uma boa ideia, mas está bem claro que isto não funcionará", teria acrescentado Gilad, segundo o telegrama obtido pelo WikiLeaks. Em outro telegrama datado de 18 de novembro de 2009, a diplomacia americana faz as seguintes observações: "um representante do Mossad (serviço secreto israelense) afirma que Teerã entende que, ao reagir positivamente ao compromisso (americano), pode continuar manipulando o tempo a seu favor".
"Do ponto de vista do Mossad, o Irã não fará nada mais que utilizar as negociações para ganhar tempo. De forma que em 2010-2011, o Irã terá a capacidade tecnológica de fabricar uma arma nuclear", ressaltou o telegrama. Segundo o espanhol El País, a diplomacia americana trabalhou para que países da América Latina isolassem o presidente venezuelano, Hugo Chávez.
Apesar dos alertas de autoridades americanas e britânicas em virtude da ilegalidade e do risco de vida para algumas pessoas que a publicação destes documentos causaria, o site Wikileaks divulgou o conteúdo de 250 mil documentos diplomáticos a grandes jornais. Em mensagem postada no Twitter, o site anunciou este domingo que estava sofrendo um ataque informático, mas que isto de forma alguma impediria a divulgação de documentos secretos dos Estados Unidos.