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Ebola: saiba como o vírus chega ao ser humano

Entenda como a doença é transmitida, quais são os sintomas e por que o surto atual preocupa especialistas

Cepa Bundibugyo, responsável pelo surto atual, não conta com vacina nem tratamento específico
Cepa Bundibugyo, responsável pelo surto atual, não conta com vacina nem tratamento específico Foto : Jospin Mwisha / AFP

A Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou na última sexta-feira, 15, uma epidemia de ebola na República Democrática do Congo (RDC). Considerada como “emergência de saúde de preocupação internacional”, a doença já acumula 91 mortes relacionadas ao vírus até a elaboração desta matéria. Além disso, as autoridades congolesas informaram cerca de 350 casos suspeitos.

Como o vírus chega ao ser humano

O ebola é uma zoonose: o ponto de partida está nos animais. Os morcegos frugívoros da família Pteropodidae são considerados os hospedeiros mais prováveis do vírus. Acredita-se que a transmissão para humanos ocorre pelo contato com sangue, órgãos ou fluidos corporais de animais infectados, como chimpanzés, gorilas, morcegos-gigantes, antílopes e porcos-espinho.

Na África, os surtos provavelmente têm origem quando pessoas manuseiam a carne crua desses animais encontrados doentes ou mortos. A partir do primeiro contato, o vírus pode se espalhar pela comunidade.

Como se transmite de pessoa para pessoa

A transmissão entre humanos ocorre pelo contato direto com sangue ou fluidos corporais de alguém infectado, como fezes, urina, saliva, leite materno e sêmen. Superfícies e objetos contaminados também representam risco.

É importante ressaltar que o vírus não é transmitido pelo ar, e não há registro de isolamento do vírus no suor. Além disso, a transmissão só ocorre após o aparecimento dos sintomas. Não há transmissão durante o período de incubação. Corpos de pessoas que morreram em decorrência da doença seguem transmitindo o vírus, o que torna rituais de velório um fator de risco relevante.

O ebola já é conhecido há mais de cinco décadas, mas volta a assustar o mundo a cada novo surto. Desde que foi identificado, em 1976, o vírus provocou ao menos outras 16 epidemias só na RDC. Ainda assim, a doença segue pouco conhecida pela maior parte da população e a dúvida se repete: afinal, o que é o ebola?

Causada por um vírus da família Filoviridae, do gênero Ebolavirus, a doença foi descoberta a partir de surtos simultâneos ao sul do Sudão e ao norte da República Democrática do Congo, então chamada de Zaire, próximo ao Rio Ebola, que deu nome à doença. Nos últimos 50 anos, o vírus causou mais de 15 mil mortes na África.

Cinco subespécies, quatro perigosas para humanos

Até o momento, foram descritas cinco subespécies do vírus ebola. Quatro delas afetam humanos; uma afeta apenas primatas não humanos. São elas:

• Vírus Ebola (Zaire Ebolavirus);
• Vírus Sudão (Sudão Ebolavirus);
• Vírus Taï Forest (Tai Forest Ebolavirus);
• Vírus Bundibugyo (Bundibugyo Ebolavirus);
• e Vírus Reston (Reston Ebolavirus), este último restrito a animais.

Segundo informações do Ministério da Saúde, a cepa Zaire, conhecida anteriormente como Febre Hemorrágica Ebola, é a mais letal, com taxa de mortalidade que pode chegar a 90%.

No surto atual, a cepa identificada é a Bundibugyo, variante sem vacina e sem tratamento específico aprovado.

 

Sintomas e diagnóstico

O período de incubação da doença pode variar de 2 a 21 dias. No entanto, o período mediano é de 5 a 10 dias para a maior parte dos casos. Os anticorpos IgM podem aparecer com dois dias após o início dos sintomas e desaparecer entre 30 e 168 dias após a infecção.

Os primeiros sinais são febre, cefaleia, fraqueza, diarreia, vômitos, dor abdominal, inapetência e dificuldade para engolir. Com a evolução da doença, surgem as manifestações hemorrágicas. Os pacientes podem desenvolver erupções cutâneas difusas seguidas de descamação, comprometimento das funções hepáticas e renais e, nos casos mais graves, coagulação intravascular disseminada, com hemorragias internas e externas.

Os óbitos normalmente ocorrem na segunda semana, associados ao colapso circulatório, a infecções bacterianas secundárias e/ou coagulação intravascular disseminada.

O diagnóstico confirmatório é feito pelo exame de PCR, com duas coletas — a segunda realizada 48 horas após a primeira. No Brasil, as amostras são encaminhadas ao laboratório de Referência Nacional Instituto Evandro Chagas (IEC). Por se tratar de uma síndrome febril hemorrágica aguda, o ebola pode ser confundido com outras doenças, como malária, febre amarela, dengue grave, hepatite, cólera, leptospirose e sarampo, entre outras.

Pessoas diagnosticadas com ebola devem ser isoladas imediatamente. Profissionais de saúde e qualquer pessoa que entre em contato com o doente são obrigados a usar Equipamento de Proteção Individual.

Autoridades congolesas e internacionais avaliam a dimensão da emergência sanitária causada pelo vírus, que já deixou 91 mortos | Foto: Badru Katumba / AFP / CP

Tratamento

Os cuidados são de suporte: hidratação precoce, correção de distúrbios hidroeletrolíticos, estabilização hemodinâmica e tratamento de infecções bacterianas. Não há tratamento licenciado comprovado para neutralizar o vírus. Quem se recupera da doença torna-se imune ao ebola.

Prevenção

Atualmente diversas vacinas estão sendo testadas, mas nenhuma delas está disponível para uso clínico, no momento. Ainda não há tratamento licenciado comprovado para neutralizar o vírus, mas uma gama de tratamentos potenciais incluindo produtos sanguíneos, terapias imunológicas e medicamentosas estão em desenvolvimento.

Ainda assim, a vacina rVSV-ZEBOV, testada na Guiné em 2015 com a estratégia de vacinação em anel, foi considerada altamente protetora e também foi utilizada em surtos na RDC.

Para a cepa Bundibugyo, no entanto, a responsável pelo surto atual, não há imunizante disponível.

As principais medidas de prevenção são:

• evitar áreas com surto ativo;
• lavar as mãos com frequência;
• evitar contato com pessoas infectadas;
• não manusear corpos de vítimas da doença.

Risco para o Brasil

Não há registro de casos de ebola no Brasil. O risco para a maioria dos brasileiros é considerado baixo. No entanto, as chances aumentam nas seguintes hipóteses, que são os principais fatores de risco:

Visitar áreas nas quais há surto de ebola;

Realizar pesquisas em animais, principalmente primatas originários da África ou Filipinas;

Fornecer assistência médica ou pessoal para pessoas infectadas;

Preparar pessoas infectadas para o enterro, uma vez que os corpos das pessoas contaminadas ainda podem transmitir a doença.

A doença é classificada como de notificação compulsória imediata e qualquer caso suspeito deve ser comunicado às autoridades sanitárias em até 24 horas, pelo Disque Notifica (0800-644-6645).