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Egito corre risco virar Estado fundamentalista islâmico

Especialistas alertam que a esperada democracia no país continua seriamente ameaçada

Especialistas alertam que a esperada democracia no país continua seriamente ameaçada
Especialistas alertam que a esperada democracia no país continua seriamente ameaçada Foto : Greg Wood / AFP / CP
A alegria dos egípcios vista nessa sexta-feira com a queda de um regime autoritário de 30 anos pode ser mais efêmera do que se imagina. A briga pelo poder tem sérias chances de caminhar para a implantação de um Estado radical islâmico, como o Irã, alerta o professor de Relações Internacionais da ESPM Heni Ozi Cukier. "Nessa nova etapa política [de formação de um novo governo], ganha força quem está mais organizado, e hoje esse alguém são os partidos islâmicos, em especial a Irmandade Muçulmana"

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Para Cukier, os movimentos populares foram os catalisadores da renúncia, capazes de reunir grupos diferentes na luta contra o governo de Hosni Mubarak, mas isso não significa que eles serão os maiores beneficiados com a transição. "A população tem reivindicações pontuais, mas não percebe o quanto a islamização do Egito está latente. Pode ser um processo muito perigoso", alerta.

As comparações com a história iraniana são inevitáveis e já estão na fala de vários analistas na mídia internacional. O Irã passou por uma revolução em 1979 que, a princípio, extirpou uma monarquia truculenta a autocrática, porém acabou tomado por fundamentalistas islâmicos, tão totalitários e antidemocráticos como os governantes anteriores.

O governo iraniano, liderado por Mahmoud Ahmadinejad, se manifestou assim que o presidente Mubarak renunciou, dizendo que os egípcios obtiveram uma "grande vitória".

Paz no Oriente Médio está em risco

Caso a Irmandade Muçulmana, partido islâmico fundado em 1929, tome a frente da transição e chegue ao poder, isso poderá despertar ânimos e paixões políticas em uma região delicada, analisa Cukier. "A retórica de ódio contra os Estados Unidos e os israelenses pode contaminar a opinião pública e retroceder o processo de paz no Oriente Médio."

O professor destaca ainda a figura do opositor e Prêmio Nobel da Paz Mohammed ElBaradei, representante da classe média e de setores pró-Ocidente. "Seria alguém comprometido com a democracia e com qualificação, mas receio que tenha pouco carisma e apelo entre a população", avalia.

Enquanto isso, as Forças Armadas tomaram frente da transição e nomearam o marechal Mohamed Hussein Tantawi, de 79 anos, para comandar o processo. O papel do Exército, para Cukier, continua incerto e ambíguo.

Constituição é essencial para garantir democracia

O professor de Direito Constitucional da PUC-SP Pedro Serrano lembra a importância da elaboração de uma nova Constituição como passo fundamental para o processo de redemocratização do Egito. "Um novo Estado já está nascendo, basta saber se ele será pensado e liderado pelo povo ou se será tomado por grupos específicos. Eleger uma Assembleia Constituinte, com espaço para o debate popular, seria essencial."

O conjunto de leis fundamentais que forma uma Constituição pode variar muito de país para país, porém ela será democrática se atender alguns princípios básicos, aponta Serrano. "Um Estado democrático deve respeitar os direitos humanos, garantir os direitos políticos a todos os cidadãos, além da convivência igualitária entre os diferentes. Só vejo condições para tal com um governo laico (nação que é oficialmente neutra em relação às questões religiosas)."

Estados árabes: qual será o próximo a entrar em crise?

O clima revolucionário no mundo árabe começou na pequena Tunísia, com a queda de Zine el Abidine ben Ali, no mês passado, e agora atingiu o maior e mais poderoso país islâmico, considerado vital para a estabilidade no Oriente Médio e no norte da África.

Com tal cenário no Egito, é natural que os demais países da região entrem em estado de alerta, aguardando por quem será o próximo alvo da população descontente e de grupos sedentos por poder.

Apresentam-se como os mais vulneráveis, segundo o professor Cukier, a Síria, a Jordânia e, principalmente, o Iêmen. Mas o especialista alerta que, caso aspirações democráticas tomem as ruas, a repressão não será tão branda como foi no Egito. "São regimes mais fechados e mais violentos, também formados por muitos refugiados e imigrantes, o que dificulta uma integração e uma unidade nacional."

As informações são do portal R7.


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