O governo do presidente argentino Javier Milei enfrenta seu momento mais crítico com um escândalo de corrupção que envolve sua irmã e secretária-geral da Presidência, Karina Milei, a quem ele se refere como "o chefe". A revelação, que coloca em xeque o discurso "anti-casta" do líder libertário, ocorre poucas semanas antes de eleições legislativas que podem definir o futuro de seu programa político.
A suposta trama veio à tona com o vazamento de áudios atribuídos ao ex-diretor da Agência Nacional de Deficiência (Andis), Diego Spagnuolo. Nas gravações, ele afirma que Karina Milei teria recebido 3% de propina em um esquema de corrupção envolvendo a compra de medicamentos para o Estado. Milei saiu em defesa da irmã, negando as acusações e classificando-as como uma "farsa plantada pela casta", mas Karina ainda não se manifestou publicamente.
Governo paralisado e queda na aprovação
O escândalo atinge o governo em um momento de fragilidade política. Com sua base de apoio desfeita no Congresso e o rompimento com a vice-presidente Victoria Villarruel, Milei tem enfrentado dificuldades para aprovar projetos e coleciona derrotas no legislativo. A situação é agravada pelo fato de as eleições legislativas estarem a poucas semanas de distância, o que pode paralisar ainda mais sua governabilidade.
O caso já impactou a aprovação do presidente. Segundo o Índice de Confiança no Governo da Universidad Torcuato di Tella, a aprovação de Milei caiu 13,6% em agosto, em comparação com o mês anterior. Embora a queda não seja atribuída apenas ao escândalo, o professor Fábio Rodriguez, da UBA, destaca que o caso dos medicamentos contribuiu para selar o descontentamento popular.
Reações, mercado e eleições
O cenário de crise também afetou a economia. O mercado argentino despencou após a divulgação dos áudios, e o risco-país voltou a crescer, ultrapassando 800 pontos, o que dificulta o acesso a mercados internacionais. Recentemente, a comitiva de Milei foi alvo de ataques com pedras em um evento de campanha, e sua irmã precisou ser retirada às pressas de outro compromisso.
Apesar da crise, o cientista político Facundo Galván, também professor da UBA, afirma que pode ser cedo para prever um impacto direto nas eleições de Buenos Aires, que ocorrerão no próximo dia 7 de setembro. Segundo ele, o eleitorado, embora descontente, não tem na oposição uma alternativa sólida. O peronismo, com sua líder Cristina Kirchner em situação legal delicada, não consegue capitalizar a insatisfação, enquanto a direita que rompeu com Milei se vê isolada. A principal consequência, segundo Galván, pode ser o aumento da abstenção, já que o eleitorado desiludido não se sente representado por nenhuma das forças políticas.
A oposição, no entanto, tenta se aproveitar do momento. A denúncia na Justiça foi feita por Gregorio Dalbón, advogado de Cristina Kirchner, e uma comissão de inquérito sobre o caso de criptomoedas no qual o presidente esteve envolvido também foi reativada.