Quase quatro anos após a invasão russa da Ucrânia, o presidente Volodimir Zelensky enfrenta uma crescente pressão interna devido a escândalos de corrupção e acusações de que sua presidência estaria utilizando o Judiciário para intimidar críticos.
A crise foi intensificada nesta quarta-feira (12) com a suspensão do atual ministro da Justiça e ex-ministro da Energia, German Galushchenko, por suspeitas de corrupção. O político, que nega as acusações, está envolvido na investigação de um suposto esquema de propinas de 100 milhões de dólares (R$ 527 milhões) na empresa nacional de energia.
O escândalo atingiu um aliado próximo de Zelensky, Timur Mindich, coproprietário da produtora audiovisual fundada pelo presidente, e ocorre em um momento crítico, com a infraestrutura energética sob bombardeio russo.
Uso do Judiciário para silenciar críticos
Apesar de desfrutar de grande popularidade desde o início do conflito em fevereiro de 2022, a equipe de Zelensky tem sido alvo de acusações de usar o sistema judicial para silenciar vozes dissidentes.
Na origem dessa acusação está a prisão em outubro de Volodymyr Kudrytsky, que dirigiu a empresa nacional de energia Ukrenergo até 2024, acusado de desvio de fundos. Kudrytsky, atualmente em liberdade sob fiança, negou as acusações e alegou que sua prisão é uma retaliação por criticar publicamente a estratégia de defesa da rede de energia contra os ataques russos.
"É puramente político. Isso não poderia ter acontecido sem a participação do gabinete presidencial. As autoridades querem mostrar o que acontecerá se assuntos delicados forem discutidos", acusou Kudrytsky à AFP.
O defensor público para assuntos empresariais, Roman Waschuk, declarou que as provas contra Kudrytsky "parecem bastante frágeis", e a deputada da oposição Inna Sovsun afirmou que há uma estratégia em curso para silenciar pessoas por meio de investigações criminais: "Você sabe que há um caso contra você e que tentarão usá-lo se você fizer algo que não gostem", disse à AFP.
Zelensky, questionado sobre o caso na semana passada, limitou-se a dizer que era uma questão judicial, mas lembrou que Kudrytsky "era o chefe de um grande sistema, e esse sistema tinha que garantir nosso fornecimento de energia. Ele tinha que fazê-lo".
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Centralização de poder e desafio para a UE
Além desses casos, a revelação do escândalo de corrupção envolvendo Timur Mindich alimentou preocupações sobre a centralização do poder. Em julho, Zelensky já havia gerado uma onda de críticas ao apresentar uma lei que buscava cercear a autonomia da Procuradoria Anticorrupção (SAPO) e do Escritório Nacional Anticorrupção (NABU), mas recuou após manifestações.
Esses incidentes representam um desafio significativo para a candidatura da Ucrânia à União Europeia (UE). Bruxelas apoia a adesão, mas pressiona Kiev a implementar reformas democráticas essenciais, já que a corrupção é o principal ponto fraco do país desde o colapso da União Soviética.
Outros casos e preocupação com o futuro
Ativistas apontam que as ações judiciais se estendem a rivais políticos. O antecessor de Zelensky, Petro Poroshenko, foi acusado de corrupção, o que ele denunciou como motivação política. Outros casos incluem a destituição da cidadania ucraniana do prefeito de Odessa, Gennadiy Trukhanov, e a detenção do detetive do NABU, Ruslan Magamedrasulov, acusado de ajudar um "Estado agressor" em um caso que seus apoiadores alegam ser uma armação.
Daria Kaleniuk, diretora do Centro de Ação Anticorrupção, expressa a preocupação geral: Zelensky decidirá "proteger seu círculo mais próximo e atacar?"