O escândalo motivou o cancelamento da visita de Estado que Dilma faria a Washington a partir de 23 de outubro. A presidente brasileira pediu o estabelecimento de uma governança global sobre a internet que - ao menos em tese - impediria sua utilização por serviços de espionagem. “O Brasil apresentará propostas para o estabelecimento de um marco civil multilateral para governança e uso da internet e de medidas que garantam efetiva proteção dos dados que por ela trafegam”, explicou.
Para Dilma, é inaceitável a justificativa que a espionagem foi adotada para proteger os Estados Unidos de ameaças terroristas. "Isso fere o direito internacional e afronta os princípios que devem reger as relações entre eles (países), sobretudo entre nações amigas. Jamais pode uma soberania firmar-se em detrimento de outra soberania”, acrescentou. "Não se sustenta argumentos que a interceptação ilegal de informações e dados destina-se a proteger as nações contra o terrorismo", reforçou.
Dilma ainda fez críticas à censura e se manifestou a favor da liberdade de expressão e democracia. “Somos um País democrático, cercado de países democráticos, pacíficos. Vivemos em paz com nossos vizinhos há mais de 140 anos. Como tantos outros latino-americanos, lutei contra o arbítrio e a censura. E não posso deixar de defender de modo intransigente a soberania do meu País. Sem ela, não há verdadeira liberdade de expressão e opinião e portanto, não há efetiva democracia", disse a presidente brasileira.
No início do pronunciamento, Dilma expressou repúdio ao atentado terrorista ocorrido em Nairóbi. "Expresso minhas condolências ao povo do Quênia. Jamais transigiremos com a barbárie”, ressaltou. Antes dela, o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, deu o pontapé inicial do evento. Ele pediu que a comunidade internacional "deixe de estimular o derramamento de sangue” - ao referir-se a situação na Síria.
Ban Ki-moon também disse que espera a "adoção iminente" de uma resolução do Conselho de Segurança sobre o controle das armas químicas em posse de Damasco, após o compromisso alcançado por Estados Unidos e Rússia. O presidente da Assembleia Geral da ONU, John Ash, discursou logo depois.
A assembleia da ONU é realizada anualmente e é o único fórum oficial a contar com a presença dos chefes de Estado de todos os 193 países-membros. O tema definido para este ano é “Agenda de desenvolvimento pós-2015: preparando o terreno”, onde se buscará alavancar processos lançados na Conferência Rio+20.
À tarde, Dilma participa da mesa de abertura do Foro Político de Alto Nível sobre Desenvolvimento Sustentável “Building the future we want: from Rio +20 to the Post-2015 Development Agenda”. O último compromisso da presidente no evento da ONU é o encontro com o presidente da Telefonica, Cesar Alierta.
Espionagem já havia sido discutida com Cristina Kirchner
Ontem, Dilma se encontrou com a presidente argentina, Cristina Kirchner, para analisar a espionagem americana e outros temas. "É pública e notória a situação que envolve os Estados Unidos com espionagem. Assim, esperamos o discurso com atenção", disse Kirchner, após ser recebida por Dilma no Hotel St. Regis, que hospeda a líder brasileira em Nova Iorque.
"A condenação e a atitude da presidente é de dignidade e respeito à soberania do país. Ela, Dilma, não se viu afetada como pessoa, mas como presidenta de seu país", destacou Kirchner. A presidente brasileira também se reuniu nesta segunda-feira, no St. Regis, com o ex-presidente americano Bill Clinton, mas não foram divulgados detalhes sobre a conversa.
Documentos vazados pelo ex-consultor de Inteligência Edward Snowden e publicados na imprensa revelam que a Agência Nacional de Segurança (NSA) espionou comunicações de Dilma, de membros do seu gabinete e da Petrobras. A situação gerou desconforto entre as autoridades brasileiras e o governo Obama.
Com informações da AFP