A Europa sofreu uma sucessão de fenômenos climáticos extremos no ano passado. O continente está se aquecendo mais rápido que o resto do mundo e segue sob ameaça de um retorno do El Niño.
A informação foi revelada em um relatório publicado nesta quarta-feira (29). "Os indicadores climáticos são bastante preocupantes", afirmou Mauro Facchini, chefe da unidade de observação da Terra da Comissão Europeia.
Ele concedeu uma entrevista a jornalistas para a apresentação do estudo. Publicado pelo serviço europeu sobre mudança climática Copernicus (C3S) e pela Organização Meteorológica Mundial (OMM), este trabalho abrange o ano de 2025.
Impacto do El Niño
O relatório recorda que, desde a década de 1980, "a Europa aqueceu duas vezes mais rápido que a velocidade da média mundial". A situação pode piorar com o fenômeno El Niño, que provoca um aumento das temperaturas superficiais no centro e no leste do Pacífico equatorial.
Sua ocorrência é "provável" este ano, observou a argentina Celeste Saulo, secretária-geral da OMM. No entanto, é muito cedo para afirmar com certeza, com projeções de El Niño mais fortes neste ano. "Mais uma vez, este relatório nos recorda que as medidas atuais em favor do clima não estão à altura da magnitude da crise", destacou a ONG WWF em um comentário enviado à AFP.
Ondas de calor frequentes
"As ondas de calor são cada vez mais frequentes e graves em pelo menos 95% do território europeu", indica o relatório. Elas se estendem desde o Mediterrâneo até o Círculo Polar Ártico.
A região da Fino-Escandinávia, no norte da Europa (formada por Finlândia, Suécia e Noruega), viveu a onda de calor mais longa desde que há registros. Foram 21 dias a 30 ºC ou mais em julho, o dobro do recorde anterior.
Na Europa, os recordes de calor se multiplicam. Na Turquia, a temperatura ultrapassou pela primeira vez os 50 ºC, e na Grécia, 85% da população foi afetada por temperaturas próximas ou superiores a 40 ºC. O oeste europeu também foi impactado pelas altas temperaturas, desde junho e em agosto em Espanha, Portugal e França, segundo o relatório.
- Cientista Carlos Nobre projeta El Niño intenso a partir de junho e reforça alerta ao RS
- Previsão aponta que El Niño pode ser o pior em 140 anos, com extremos de calor
- Oceanos ficam perto de recorde de calor em março e indicam provável retorno do El Niño
Degelo avança incontrolavelmente
As geleiras registraram uma perda líquida de massa em 2025. A Islândia, por exemplo, viveu o seu segundo pior degelo anual depois de 2005.
"Segundo as previsões, as geleiras da Europa e de todo o mundo continuarão perdendo massa ao longo do século XXI, seja qual for o cenário de emissões". Isso afeta 2 bilhões de pessoas que dependem da água das montanhas, afirma o estudo.
A Groenlândia perdeu 139 gigatoneladas de gelo no ano passado. Isso foi o suficiente para aumentar o nível do mar em 4 milímetros.
Oceanos, biodiversidade e incêndios
Os oceanos também foram afetados, com um recorde de 86% das regiões oceânicas registrando pelo menos um dia de episódio de calor "intenso". Estas ondas de calor têm consequências significativas para a biodiversidade.
Elas atingem sobretudo as pradarias submarinas do Mediterrâneo, que atuam como barreiras marinhas naturais e são sensíveis às temperaturas elevadas. "São zonas-chave para a biodiversidade que abrigam milhares de peixes por hectare e constituem habitats de reprodução essenciais", afirmou Claire Scannell, meteorologista-chefe do serviço climático irlandês e uma das autoras do relatório.
As áreas devastadas pelos incêndios florestais atingiram o número recorde de 1.034.550 hectares. Além disso, as tempestades e inundações deixaram pelo menos 21 mortos e afetaram 14.500 pessoas. As inundações e as precipitações extremas, no entanto, foram menos generalizadas do que nos últimos anos.
Aumento de energias renováveis
Entre as boas notícias, as energias renováveis representaram, pelo terceiro ano consecutivo, uma parcela superior em comparação às energias fósseis na geração de eletricidade, com 46,6% da produção.
"Não é suficiente. Temos que acelerar", alertou Dusan Chrenek, assessor principal do serviço de Clima da Comissão Europeia. Segundo ele, "temos que nos esforçar para abandonar progressivamente as energias fósseis".