Afirmando agir em "legítima defesa", a França realizou seus primeiras ataques aéreos contra o grupo jihadista Estado Islâmico (EI) na Síria, após duas semanas de voos de reconhecimento. A França "bombardeou alvos na Síria, com base em informações coletadas durante as operações aéreas que começaram há mais de duas semanas", indicou a presidência francesa neste domingo.
O comunicado não especifica os alvos nem o local dos ataques franceses, os primeiros em território sírio. Eles foram realizados "no respeito da nossa autonomia de ação, em coordenação com os nossos parceiros na região", segundo o Eliseu, que enfatiza que esta ação confirma a determinação de "lutar contra a ameaça terrorista do Daech" (acrônimo em árabe do EI).
Estes primeiros bombardeios foram conduzidos "em legítima defesa" e tiveram como alvo "santuários do Daech, onde são treinados aqueles que atacam a França", afirmou, por sua vez, o primeiro-ministro francês Manuel Valls. Até então, Paris se negava a intervir militarmente na Síria, temendo que suas ações militares servissem aos interesses do presidente sírio, Bashar al-Assad, considerado pela França o principal responsável pela guerra em seu país.
A França iniciou em 8 de setembro voos de reconhecimento sobre a Síria. Há um ano, ela lidera uma campanha de bombardeios no Iraque (operação Chamal, com cerca de 215 ataques e 344 alvos destruídos), e expandiu suas perações para a vizinha Síria.
De acordo com Paris, que descartou qualquer intervenção terrestre, os ataque têm como principal objetivo a prevenção de atos terroristas na Europa, visando, de forma orientada, centros de comando, de treinamento e logística do grupo jihadista.
Também ocorrem em meio a grave crise dos refugiados sírios na Europa, enquanto alguns líderes políticos defendem que os bombardeios contra o EI poderiam ajudar a frear o fluxo de refugiados.
Desde 22 de setembro do ano passado, a coalizão internacional liderada pelos Estados Unidos bombardeou quase 7 mil vezes (4.444 ataques no Iraque e 2.558 na Síria), de acordo com dados do comando americano. Quase 80% desses ataques foram realizados por aviões americanos.
Até agora, a campanha aérea da coalizão não atingiu os resultados esperados. No Iraque, nenhuma grande cidade foi recuperada pelas forças pró-governo. Na Síria, apesar de o EI ter sido contido pelos curdos ao longo da fronteira com a Turquia, os jihadistas tomaram Palmyra em maio e fizeram recentemente progressos na região de Aleppo, ameaçando perigosamente as rotas de abastecimento para a Turquia de outros grupos rebeldes. Além disso, um plano dos Estados Unidos de apoiar e treinar dezenas de rebeldes está prestes a se transformar em um fiasco.
Desafio diplomáticoNa frente diplomática, depois de mais de quatro anos de conflito que deixou cerca de 240 mil mortos, o impasse permanece: entre a procrastinação no campo ocidental, o apoio dos turcos, sauditas e do Catar aos grupos rebeldes sunitas que enfrentam o regime de Assad, que mostra sinais muito claros de cansaço, mas que conta com o apoio do Irã e da Rússia.
Moscou tem fortalecido nas últimas semanas suas capacidades militares na região de Latakia (oeste), reduto do regime. E o presidente Vladimir Putin está se preparando para anunciar um grande plano para a Síria, coma criação de uma coalizão para combater o EI, e que deverá incluir Assad, atualmente visto como um pária pela comunidade internacional em razão da terrível violência infligida a seu povo.
Para Paris, "o caos sírio deve encontrar uma resposta global", segundo indicou a presidência francesa neste domingo, enquanto muitos veem os bombardeios franceses na Síria como uma mudança na posição francesa em favor do regime de Damasco.
Mas alguns especialistas são céticos sobre a eficácia dos ataques aéreos franceses. Eles veem especialmente uma dimensão política e uma maneira de voltar a entrar no jogo diplomático, na véspera do 70º Assembleia Geral da ONU, que se inicia segunda-feira em Nova Iorque.
França realiza primeiros ataques aéreos contra Estado Islâmico
Força militar francesa bombardeou alvos na Síria