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França se questiona por que é alvo de atentados

Ataque de 14 de julho foi o último de uma série que vem vitimando o país europeu

Intelectuais tentam explicar e entender o fenômeno
Intelectuais tentam explicar e entender o fenômeno Foto : Mathieu Alexandre / AFP / CP
O atentado de 14 de julho – no qual Mohamed Lahouaiej Bouhlel jogou um caminhão contra uma multidão que aguardava a queima de fogos comemorativa da Queda da Bastilha – foi o último de uma série que vem vitimando a França. Mas por que esse país? Intelectuais tentam explicar e entender o fenômeno.

Quinta-feira luminosa na França. Mais um 14 de julho festivo: comemoração da data nacional francesa mais importante, a da Queda da Bastilha, do começo da revolução de 1789 e do fim do nefasto Antigo Regime, o longo reinado do absolutismo dos monarcas sem limites, da ignorância e da nobreza parasita. Dia de comemorar a vitória do Iluminismo de Voltaire, Diderot, D’Alambert, Rousseau e tantos outros pensadores. Noite de iluminar os céus com fogos de artifício. Assim deveria ser também em Nice, na esplendorosa Côte d’Azur, balneário às margens do mar Mediterrâneo, espaço, por excelência, do modo de vida ocidental: liberdade, turismo, consumo, tolerância, alegria, diversidade cultural, gente do mundo todo circulando. E, de repente, o obscurantismo se fez presente: um caminhão assassino pilotado por um tunisiano de 31 anos de idade, um certo Mohamed Lahouaiej Bouhlel.

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Uma carnificina reivindicada depois pelo Estado Islâmico. Balanço mais imediato: 84 mortos, entre os quais dez crianças, 202 feridos, 52 deles gravemente. O caminhão de 19 toneladas, alugado numa pequena cidade perto de Nice, entrou em ação às 22h45min (hora francesa) entre os números 147 e 11 da Promenade des Anglais, ponto nobre do lazer na cidade. Mohamed Lahouaiej Bouhlel, condenado a seis meses de prisão em regime aberto por ter agredido um homem numa briga de trânsito, casado, pai de três filhos, em vias de separação, seguindo tratamento em função de perturbações mentais, acelerou sobre a multidão numa área de circulação restrita de automóveis. Carregava uma pistola 7.65 mm, uma granada falsa, munição, uma metralhadora, dois fuzis de brinquedo e um carregador. Seu objetivo: matar o máximo possível de inocentes.

Matar inocentes. Por quê? A pergunta ecoa na França inteira. O assassino foi morto pela polícia no desfecho da sua ação. Por que a França? Em poucos meses, a França foi ensanguentada nos atentados contra o jornal satírico Charlie Hebdo e na casa noturna Bataclan. Na verdade, conforme os minuciosos resgates de jornais como Le Monde, Libération e Le Figaro, foi ainda mais do que isso. Uma escalada de violência com meios variados. Em 11 de março 2012, Mohamed Merah matou um militar num parque de Toulouse. Quatro dias depois, assassinou mais dois soldados em Montauban. Passados mais quatro dias, atacou uma escola em Toulouse, ceifando as vidas de um professor, de suas duas filhas e de uma menina de 7 anos. Foi morto em 22 de março. Parecia um ato isolado. Em 7 de janeiro de 2015, o terror mostrou que estava de volta para ficar. Os irmãos Chérif e Saïd Kouachi saíram do anonimato para entrar na história pelo seu lado mais escuro. Investiram contra a redação de Charlie Hebdo. Saíram com um massacre. Atingiram o coração de Paris. O horror!

No dia 8 de janeiro de 2015, com a França sob o choque, Amedy Coulibaly matou um policial, no sul de Paris, em Montrouge, em ação numa loja de produtos judaicos. Os irmãos Chérif et Saïd Kouachi, assim como Coulibaly, foram mortos pelas forças policiais. Em 30 de fevereiro de 2015, em Nice, Moussa Coulibaly atacou e feriu, armado de faca, três militares diante de um centro judaico. Preso, justificou os atos em função do seu ódio à França e aos judeus.

Em 19 de abril de 2015, Sid Ahmed Ghlam, um estudante argelino foi preso e acusado de preparar um atentado contra uma igreja em Villejuif, nos arredores de Paris. Em junho do mesmo ano, um empresário foi decapitado em Isère. Em agosto, militares americanos impediram um atentado num trem fazendo o percurso de Amsterdã a Paris. No Bataclan e em alguns bares e restaurantes parisienses ao ar livre, em 13 de novembro de 2015, foram 130 mortos e 350 feridos. Sempre devastador.

Por que a França? A Bélgica também foi vítima dos terroristas neste ano. Na sexta-feira, atiradores mataram ao menos seis pessoas num shopping de Munique, mais uma vez levantando o medo de ser um ataque do fundamentalismo islâmico. Mas a França parece continuar sendo o alvo preferencial. O que pode explicar esse cenário assustador? Muitos são os fatores, históricos, econômicos, religiosos e políticos, mas um se sobressai: pátria do Iluminismo, presente no combate ao terrorismo em países como a Síria, a França simboliza, mais do que qualquer outro país, a cultura ocidental laica, aberta e tolerante odiada pelos fundamentalistas.

Ressentimento e exclusão

Por que a França é o alvo preferencial dos terroristas? Intelectuais franceses não param de buscar respostas para essa questão crucial e complexa. Um dos grandes nomes da intelectualidade francesa contemporânea, Lucien Sfez, 79 anos, nascido em Túnis, professor emérito da Universidade Paris I, Panteão-Sorbonne, autor de livros de referência, entre os quais “Crítica da decisão” (1973), “O inferno e o paraíso: crítica da teologia política” (1978), “Lições de igualdade” (1984), “Crítica da comunicação” (1988), “A política simbólica” (1993) e “Técnica e ideologia” (2002), não tem dúvidas quanto ao que provoca tanto mal, desespero e estrago.

Em primeiro lugar, a participação da França na coalizão de forças militares enviada ao Iraque. Depois, a visão de mundo francesa, considerada pelos fundamentalistas como “extremamente hostil ao islamismo por sua laicidade e em função de elementos concretos como a proibição do uso do véu pelas mulheres nas repartições públicas e da burca em qualquer espaço público”.

Finalmente, explica Sfez, “o grande número de magrebinos – originários de Marrocos, Argélia e Tunísia – vivendo na França e trazendo com eles a memória do nosso passado colonial. São entre 8 e 10 milhões numa população total de 66 milhões. Isso significa, mais do que em qualquer outro lugar, fartura de meios materiais e humanos de ação”. Um foco de tensão permanente alimentado pelo desamparo. Lucien Sfez, que vive entre Paris e Nice, não deixa de examinar aspectos culturais que continuam a produzir choques de concepções de mundo em função da religião: “Há muçulmanos que não deixam suas mulheres ser examinadas por médicos homens nos hospitais franceses”. Para ele, apesar do impacto dos atentados, os franceses saberão separar as coisas e não se entregarão para a extrema-direita nas eleições de 2017. A França precisa melhorar o serviço de informação.

Olivier Cathus, 49 anos, doutor em Sociologia pela Universidade Paris V, Sorbonne, mora em Montpellier, cidade do sul da França que também abriga muitos magrebinos e seus descendentes. Autor de um livro, “O funk e as músicas populares do século XX”, casado com uma brasileira, Cathus é um espírito permanentemente aberto às culturas periféricas com seus estilos e formas de protesto. Para ele, a questão precisa ser tratada com muito cuidado: “Não se pode desconsiderar o fato de que a França esteja envolvida nos conflitos na Síria e em outros lugares no Oriente Médio. O Estado Islâmico vai justificar os seus atentados como uma resposta aos ataques cometidos pelos franceses, mas, para mim, essa não é uma questão de política internacional. Nem religiosa. Precisamos parar de fantasiar com salafistas, que não passam de quietistas interessados em viver tranquilamente a religião que praticam, cada qual no seu canto, mesmo que seja uma versão muito tradicionalista e um pouco perigosa”.