Esta foi a primeira reação oficial do governo espanhol após o anúncio do presidente boliviano de nacionalizar a empresa que transporta dois terços da rede elétrica no país. "O governo espanhol não gosta deste tipo de decisão, principalmente porque acreditamos que é fundamental manter a segurança jurídica no processo de investimentos em países como a Bolívia", afirmou De Guindos. "A Rede Elétrica estava oferecendo um bom serviço do ponto de vista da economia da Bolívia e dos cidadãos", assegurou.
De Guindos destacou, no entanto, que a Espanha não acredita "que exista qualquer tipo de situação generalizada" na América Latina. "Tem implicações a médio prazo do ponto de vista do que é o desenvolvimento econômico destes países e do que é garantia dos investimentos, e os investimentos são fundamentais", acrescentou.
A REE afirmou nesta quarta-feira em um comunicado que "se põe a disposição do governo da Bolívia" para negociar "uma compensação adequada" à expropriação de sua filial no país andino, a Transportadora de Eletricidade (TDE). "A Rede Elétrica confia que ambas as partes chegarão a um acordo para alcançar uma compensação adequada e defender assim os interesses de seus acionistas, tanto nacionais como internacionais", afirmou a companhia espanhola em um comunicado.
A União Europeia (UE), por sua vez, se declarou preocupada e vigilante com a situação e exigiu uma "compensação rápida" por parte da Bolívia. "Ações deste tipo enviam um sinal negativo aos mercados sobre o clima de negócios para investir na Bolívia. Confiamos que as autoridades bolivianas cumpram com seus compromissos de investimento com a Espanha e garantam uma compensação rápida e adequada depois desta expropriação", indicou o porta-voz de Comércio da Comissão Europeia, John Clancy.
A REE informou ainda que a medida boliviana não tem um efeito relevante nos negócios e nos resultados da empresa. "O aporte da TDE (Transportadora de Eletricidade, filial da REE na Bolívia) aos números de negócios do grupo Rede Elétrica Corporação é de 1,5% e, portanto, não tem um efeito relevante nos negócios e nos resultados do grupo", declarou a empresa em um comunicado.
A TDE foi fundada em 1997 e possui 73% das linhas de transmissão, segundo sua página oficial na internet na Bolívia. Cerca de 99,94% de seu capital estava em mãos da Rede Elétrica Internacional e 0,06% pertencia aos trabalhadores da empresa, de acordo com a página na web da empresa.
Morales, um descendente indígena de tendência esquerdista, tomou a medida em meio a protestos de sindicatos, que exigem um incremento salarial superior aos 8% oferecidos pelo governo. O líder boliviano já realizou outras nacionalizações no Dia do Trabalho desde que chegou ao poder em janeiro de 2006, para nacionalizar a produção de petróleo, empresas de eletricidade e de fundições.
Morales evita falar da decisão argentina de expropriar YPF
A nacionalização na Bolívia acontece duas semanas depois da Argentina expropriar a filial YPF do grupo espanhol Repsol. Apesar das medidas nacionalistas, Morales tem evitado opinar sobre a decisão argentina de expropriar 51% da petroleira YPF, sob o controle da espanhola Repsol. "É um tema da Argentina e da Espanha", disse ele em recente coletiva de imprensa.
A decisão da presidente argentina Cristina Kirchner "não vai nos trazer nenhum problema porque temos uma relação de muita confiança com a Repsol (...). A Repsol, como empresa, respeita todas as normas bolivianas e os investimentos que a Repsol está fazendo vão bem", afirmou Morales.
Depois da nacionalização dos hidrocarbonetos bolivianos em 2006 e após árduas negociações, 10 petroleiras estrangeiras, entre elas a Repsol-YPF (que controlava 27% das reservas gasíferas bolivianas), alcançaram acordos com o governo Morales sobre as novas condições para operar na Bolívia.