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Irã compara protestos a “golpe” e faz alerta contra guerra regional

Teerã já reconheceu mais de 3.000 mortes durante os protestos

Governo iraniano  insiste que a maioria de mortos em protestos  eram membros das forças de segurança e transeuntes inocentes
Governo iraniano insiste que a maioria de mortos em protestos eram membros das forças de segurança e transeuntes inocentes Foto : AFP

O líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, chamou as recentes manifestações antigovernamentais de "golpe de Estado" e afirmou que uma intervenção militar dos Estados Unidos provocaria uma "guerra regional", em um discurso neste domingo (1).

A repressão letal efetuada pelas autoridades iranianas contra os protestos que começaram no final de dezembro levou o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a ameaçar o Irã com uma intervenção militar.

As forças militares dos Estados Unidos bombardearam o Irã em junho do ano passado, durante uma guerra de 12 dias iniciada por Israel. Atualmente, o país mantém no Golfo uma dezena de navios, incluindo o porta-aviões "USS Abraham Lincoln".

Em seu primeiro discurso público desde meados de janeiro, o aiatolá Ali Khamenei advertiu que "os americanos devem saber que, se iniciarem uma guerra, desta vez será uma guerra regional".

"Os iranianos não devem ter medo da retórica de Trump", acrescentou, segundo a agência de notícias Tasnim.

As manifestações no Irã começaram como uma expressão de descontentamento com o elevado custo de vida, mas se tornaram um grande movimento contra o governo que os líderes do país chamaram de "distúrbios" fomentados pelos Estados Unidos e por Israel.

"Foi como um golpe de Estado e foi reprimido", disse Khamenei.

Teerã reconheceu mais de 3.000 mortes durante os protestos, mas insiste que a maioria eram membros das forças de segurança e transeuntes inocentes. A presidência iraniana publicou neste domingo uma lista que identifica 2.986 vítimas fatais.

Grupos de defesa dos direitos humanos e potências internacionais acusam, no entanto, o Irã e a Guarda Revolucionária de reprimir os protestos com extrema violência, com um balanço de 6.713 mortos e mais de 26.000 detidos, segundo a ONG HRANA, que tem sede nos Estados Unidos.

O destino de Erfan Soltani, um manifestante detido em 10 de janeiro, chamou a atenção internacional depois que o governo dos Estados Unidos afirmou que ele seria executado, apesar de Teerã ter negado que as acusações contra ele implicassem uma condenação à morte.

O advogado do manifestante, Amir Mousajani, informou neste domingo que o jovem de 26 anos foi libertado no sábado após o pagamento de fiança equivalente a 12.600 dólares (66.000 reais).

Preocupada e assustada

O ambiente nas ruas de Teerã é tenso. Firuzeh, 43 anos, disse à AFP que está "muito preocupada e assustada".

"Assisto ao noticiário constantemente (...) e às vezes acordo no meio da noite para acompanhar", acrescentou a dona de casa que prefere não revelar o sobrenome.

O presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, disse no sábado que uma guerra não beneficia seu país, nem os Estados Unidos.

Um funcionário de alto escalão do governo relatou "progressos" para "negociações" com Washington.

Trump afirmou que Teerã negocia com Washington, mas não revelou detalhes nem retirou suas ameaças. "Veremos o que acontece", disse. Trump, também disse neste domingo que espera chegar a um acordo com o Irã, depois que o líder supremo do país advertiu que um eventual ataque de Washington contra a República Islâmica desencadeará uma guerra regional. Quando questionado sobre a advertência do aiatolá Ali Khamenei, Trump respondeu aos jornalistas: 'É claro que ele vai dizer isso'.'Esperamos chegar a um acordo. Se não conseguirmos, então descobriremos se ele tinha razão ou não.'

Os Estados Unidos e as potências ocidentais suspeitam que o Irã deseja produzir armamento atômico e pressionam Teerã a negociar um acordo sobre seu programa nuclear. Teerã afirma que tem apenas objetivos civis, como a geração de energia.

Em uma entrevista à CNN exibida neste domingo, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, declarou que está preocupado com possíveis "erros de cálculo", mas acredita que Trump é "sensato o suficiente para tomar a decisão correta".

O chanceler afirmou que o Irã perdeu a confiança nos Estados Unidos como parceiro de negociação e disse que alguns países da região estavam atuando como intermediários para restabelecer a confiança.

"Portanto, vejo a possibilidade de outro ciclo de conversas se a equipe negociadora americana seguir o que disse o presidente Trump: chegar a um acordo justo e equitativo para garantir que não haja armas nucleares", acrescentou.

Vergonha para a Europa

A União Europeia (UE) também pressiona o Irã e incluiu esta semana a Guarda Revolucionária, o exército ideológico da República Islâmica acusado de coordenar a repressão, em sua lista de "organizações terroristas".

Como medida de retaliação, o Parlamento iraniano declarou neste domingo os exércitos europeus como "grupos terroristas".

No momento, não é possível saber quais serão as consequências do anúncio do Parlamento iraniano, mas tudo indica que é algo meramente simbólico.

Imagens exibidas pela televisão pública mostraram o presidente do Parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf, e os deputados vestidos com o uniforme da Guarda Revolucionária em sinal de solidariedade e desafio.

"Morte aos Estados Unidos", "Morte a Israel", "Vergonha para a Europa", gritaram os deputados no plenário, no dia do 47º aniversário do retorno do exílio para o Irã do aiatolá Ruhollah Khomeini, pai fundador da República Islâmica.

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