Uma juíza dos Estados Unidos bloqueou temporariamente a decisão do governo de Donald Trump de impedir a Universidade de Harvard de matricular e aceitar estudantes estrangeiros, de acordo com um documento judicial divulgado nesta sexta-feira (23).
"O governo Trump está proibido de implementar (...) a revogação da certificação SEVIS (Programa de Estudantes e Visitantes de Intercâmbio) do demandante", ordenou a juíza Allison Burroughs. Além disso, a instituição de ensino processou o chefe de Estado pela tentativa de aplicar a medida.
Na quinta-feira, a secretária de Segurança Interna, Kristi Noem, anunciou a "revogação com efeito imediato" da possibilidade de estrangeiros se matricularem na instituição, ameaçando o futuro de milhares de estudantes.
Trump está furioso com Harvard, de onde saíram 162 vencedores do Prêmio Nobel, depois que a universidade rejeitou sua exigência para se submeter a uma supervisão de admissões e contratações.
Para o presidente, a instituição é um foco de antissemitismo e da ideologia liberal progressista.
Seu governo já ameaçou revisar US$ 9 bilhões (quase R$ 51 bilhões) em financiamento governamental para Harvard, congelou uma primeira parcela de US$ 2,2 bilhões (R$ 12,4 bilhões) em subsídios e US$ 60 milhões (R$ 339 milhões) em contratos oficiais, além de ter deportado um pesquisador da Harvard Medical School.
Este é "o mais recente ato do governo em clara retaliação ao exercício dos direitos de Harvard, amparados pela Primeira Emenda, ao rejeitar as exigências do governo de controlar a governança, o currículo e a 'ideologia' de seu corpo docente e seus estudantes", afirma a ação movida no tribunal federal de Massachusetts.
A perda de alunos estrangeiros - mais de um quarto do corpo discente - pode custar caro para a instituição, que cobra dezenas de milhares de dólares por ano em mensalidades.
Estudantes chineses
Noem declarou na quinta-feira que o governo "responsabiliza Harvard por fomentar a violência, o antissemitismo e a coordenação com o Partido Comunista Chinês em seu campus".
Os estudantes chineses representam mais de 20% das matrículas internacionais da universidade, segundo seus dados internos, e Pequim afirmou que a decisão "só prejudicará a imagem e a posição internacional dos Estados Unidos".
"A parte chinesa tem se oposto sistematicamente à politização da cooperação educacional", disse a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Mao Ning.
- Governo dos EUA impede Harvard de matricular estudantes estrangeiros
- Trump demite esposo de Kamala Harris do conselho do Museu do Holocausto
Karl Molden, um aluno austríaco de Harvard, disse que havia solicitado uma transferência para Oxford, no Reino Unido, com medo das medidas do governo americano.
"É assustador e triste", disse à AFP, na quinta-feira, o estudante de literatura clássica de 21 anos, que considerou sua admissão na instituição como o "maior privilégio" de sua vida.
Os líderes da seção de Harvard da Associação de Professores Universitários classificou a decisão de Trump como "a última de uma série de medidas abertamente autoritárias e retaliatórias contra a mais antiga instituição de ensino superior dos Estados Unidos".