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López Obrador é o favorito à presidência do México

Eleições de domingo também renovarão Câmara dos Deputados e Senado

López Obrador é o favorito à presidência do México
López Obrador é o favorito à presidência do México Foto : Ronaldo Schemidt / AFP / CP
O México elege neste domingo um novo presidente e também renova a Câmara dos Deputados e o Senado. O grande favorito para ocupar a presidência pelos próximos seis anos é Andrés Manuel López Obrador, que aparece nas pesquisas posicionado para vencer o turno único. Com isso, deve romper a hegemonia quase total desde 1929 no país do Partido Revolucionário Institucional (PRI), interrompida apenas por dois mandatos do Partido da Ação Nacional (PAN).

Um velho conhecido da política local, López Obrador moderou o discurso, antes mais claramente à esquerda, fechou alianças e constituiu o progressista Movimento Regeneração Nacional (Morena) para finalmente ficar perto da vitória, em sua terceira tentativa consecutiva. A troca de comando teria, portanto, dimensão histórica, mas analistas ouvidos pelo Broadcast, serviço de notícias e dados em tempo real da Agência Estado, destacam a margem de manobra limitada para mudanças mais radicais, em um contexto de crescimento modesto, pouco espaço para novo endividamento e ainda riscos importantes, sobretudo nas relações com os Estados Unidos.

"Seria muito fácil dizer que, por ser um candidato com um projeto populista e de esquerda, haveria uma mudança radical na política mexicana, porém isso é totalmente falso", afirmou em entrevista Miguel Cervantes Jiménez, professor de Economia da Universidade Nacional Autônoma do México (Unam). Ele destaca o tamanho da economia mexicana, uma das 15 maiores do mundo, com estruturas estabelecidas entre empresários, lideranças políticas, trabalhadores e a sociedade em geral.

"Definitivamente, não haverá ruptura. Não porque não queira López Obrador, mas porque o projeto que na realidade ele tem exigiria um México distinto", comenta. Cervantes Jiménez diz que esse projeto remete ao período conhecido como desenvolvimento estabilizador, ou o milagre mexicano, dos anos 1952-1970, quando a economia se industrializou, aproveitando a bonança internacional do pós-Segunda Guerra. Hoje em dia, contudo, o governo tem opções limitadas para obter recursos, já que a venda de ativos, a alta de impostos, a emissão de dinheiro ou o aumento na dívida não parecem alternativas factíveis, no contexto atual.

Alberto Olvera, pesquisador do Instituto de Investigações Histórico-Sociais da Universidade Veracruzana, também vê pouco espaço para grandes mudanças. "O governo não tem capacidade de incrementar seu gasto nem fontes de renda que lhe permita constituir-se no principal ator econômico do país, como foi no passado", destaca. "Não há espaço fiscal, a situação nessa frente é muito frágil."

Nas pesquisas, o segundo colocado é Ricardo Anaya, do PAN, advogado e ex-deputado federal. Outro nome importante na disputa é José Antonio Meade, do PRI, que foi secretário do Desenvolvimento Social e da Fazenda do governo atual, liderado por Enrique Peña Nieto. Pesquisa do instituto Mitofsky da última segunda-feira mostrava López Obrador com 48,1% das intenções de voto, Anaya com 25,5% e Meade, com 22,5%. Outras sondagens não têm mostrado em geral quadro muito diverso, mesmo com o desagrado mostrado por importantes empresários mexicanos e pelos mercados diante do favorito.

Obrador começou na política no PRI

Aos 64 anos, López Obrador começou a carreira política no PRI, sigla histórica que dominou o país durante 70 anos, no século 20. Em 1989, abandonou a via tradicional para ser um dos fundadores do Partido da Revolução Democrática (PRD), que buscava se posicionar como uma alternativa social-democrata no espectro político. Em 2006, perdeu por pouco mais de meio ponto porcentual a disputa para presidente para Felipe Calderón, do PAN, em meio a várias acusações de fraude. O candidato derrotado não aceitou o resultado e tentou pressionar por uma recontagem, nunca realizada.

Em 2014, o político, conhecido no país pelas iniciais AMLO, realizou nova guinada, ao entrar no Morena, constituído como partido naquele mesmo ano. O Morena lidera a coalizão "Juntos faremos história", que reúne outra sigla mais à esquerda, o Partido do Trabalho, mas também o conservador Partido Encontro Social. "Embora seja um partido muito pequeno, os votos do Encontro Social são decisivos para a maioria governista. Não creio que mesmo essa maioria signifique que ele pode fazer o que queira", diz Olvera. Pesquisas indicam que o grupo de AMLO tem a chance de garantir maioria no Congresso, mas é importante a ressalva de que esse grupo heterogêneo impõe limites claros à ação do provável futuro líder.

Economia e Trump


Em editorial de junho, o Washington Post comparou López Obrador ao presidente dos EUA, Donald Trump. O próprio jornal americano, porém, já advertia que isso não significa que eles devam se dar bem. "Se López Obrador vencer em 1º de julho, as relações bilaterais já envenenadas por Trump devem se tornar ainda mais tóxicas", opinou o diário.O atual presidente mexicano tem a imagem bastante desgastada, seja por acusações de corrupção no governo ou pelo fracasso em avançar contra a violência bárbara dos cartéis do narcotráfico que dominam várias áreas - o ano de 2017 foi o mais violento em duas décadas no país. Peña Nieto tenta coexistir com o líder americano, embora tenha dito que não pretende pagar pelo muro na fronteira que Trump insiste em cobrar dos mexicanos.

O México enfrenta um grande risco à economia por causa da renegociação do Tratado Norte-Americano de Livre-Comércio (Nafta, na sigla em inglês), que reúne os EUA e o Canadá. Cervantes Jiménez lembra que no ano passado o México conseguiu mais de US$ 400 bilhões com exportações, sendo que 75% desse montante veio dos EUA. Além do Nafta e da proximidade geográfica, o professor lembra que existem cadeias de comercialização e redes produtivas construídas ao longo de décadas. Há, porém, o risco de que Trump decida cancelar o Nafta, fazendo valer sua preferência por acordos diretos com cada país. "Teríamos que chegar a um acordo bilateral, o que obviamente nos debilita."

O presidente americano ainda incluiu o México em seus alvos recentes, ao anunciar tarifas contra produtos do vizinho ao Sul, que por sua vez disse que pretendia impor uma retaliação. "Vamos ter dificuldades muito grandes, Trump nos causará problemas graves. Se não houver um acordo rápido e adequado, uma guerra comercial será muito danosa para o México, o que significará que o governo terá ainda menos recursos", lamenta Olvera. "Isso impediria que o governo mexicano fizesse qualquer coisa."