"Não leio os jornais nem escuto rádio. Falam coisas horríveis", disse Suzuki. "Por que tenho que saber mais sobre o que vi?", pergunta. Ela levanta todos os dias quando o sol nasce e desce para limpar os escombros deixados pelo tsunami que atingiu sua casa em 11 de março.
Suzuki retira os escombros de sua casa, que foi atingida por uma onda de dois metros de altura, enquanto ouve o som de um helicóptero levando os últimos cadáveres encontrados. A lama cobre as fotos de familiares e outros quadros. Um forte cheiro de água do mar e peixes em estado de decomposição invadiram o local.
Na vizinhança, automóveis virados e barcos estão nas ruas e nos jardins. As pessoas caminham sobre carros presos entre dois edifícios, como se fossem pontes.
A missão mais importante de Suzuki não consiste em limpar sua casa, mas sim encontrar sua filha de 41 anos, que desapareceu no dia da catástrofe. A mãe estava na cidade de Sendai, a cerca de 60 quilômetros de sua casa, quando o terremoto de 9 graus de magnitude atingiu o país. Ela conseguiu voltar para casa na tarde do dia seguinte, depois de dividir um táxi do Sendai até um local perto de Ishinomaki, e depois caminhar durante sete horas com água nos joelhos, em meio aos cadáveres que flutuavam.
Quando chegou à casa que dividia com sua filha, ela não estava. "Estive a ponto de morrer", disse Suzuki.
Muitas pessoas que continuam procurando seus parentes passaram pelo doloroso processo de sentir que suas esperanças diminuem lentamente. Primeiro esperam que essa pessoa não tenha sido ferida. Depois ficam sabendo que seu nome não está na lista dos pacientes internados nos hospitais. A última etapa dessa busca é o desejo de encontrar seu corpo.
As famílias visitam necrotérios improvisados. Há listas de cadáveres, todos numerados. "No início, me assustava ver os corpos, mas tive que me acostumar", disse Suzuki, preparando-se para outra busca.