Em um ato inédito em 17 anos de governo chavista, Maduro, usando sua faixa presidencial, fez uma prestação de contas perante um Congresso dominado pela oposição. "Convoco todo o país a apoiar as ações que esta emergência vai ativar, a união nacional para enfrentar esta emergência econômica para preservar a paz", declarou o governante.
Pouco antes de comparecer ao Parlamento, Maduro decretou a "emergência econômica", por 60 dias, devido à crise. De acordo com os primeiros indicadores econômicos divulgados em mais de um ano, a inflação acumulada entre janeiro e setembro de 2015 foi de 108,7%, e a economia encolheu 4,5% neste período.
"Os números catastróficos do resultado de uma situação econômica que, certamente, em outros tempos, com políticas regressivas neoliberais e capitalistas, teriam nosso povo no desemprego", manifestou o governante. Maduro informou que houve uma redução de mais de 70% na entrada de divisas em pouco mais de um ano, devido à queda no preço do petróleo. Fonte de 96% das divisas do país, esta semana a commodity fechou em 24,38 dólares o barril, o menor preço dos últimos 12 anos.
O presidente disse acreditar que "chegou a hora" de acabar com essa dependência do petróleo e dar um "salto" para uma economia produtiva. O país com as maiores reservas de petróleo do planeta sofre um severo desabastecimento que gera longas filas que irritam os venezuelanos.
No labirinto econômico
Em seus discursos, Maduro sustenta que o país se encontra em uma "tempestade" econômica, da qual se é possível sair apenas "com mais socialismo", frente a um "Parlamento burguês" que busca impor um "modelo neoliberal". "Terão de me derrubar para aprovar uma lei de privatização. Não, não e não!", manifestou, subindo o tom, em um breve troca de acusações com deputados opositores que ouviam o presidente de suas bancadas.
Para sair do que chamou de "labirinto econômico", Maduro habilita o governo, com o decreto, a dispor de bens de empresas privadas para garantir o abastecimento de produtos. Também estabelece limites para a entrada e a saída da moeda local em espécie, explicou mais cedo o ministro da Economia, Luis Salas.
Analistas recomendam a unificação dos três tipos de câmbio monetário, a eliminação do controle de preços, aumentar o valor da gasolina que é quase de graça no país, assim como o estímulo ao investimento privado e redução dos gastos públicos.
Bandeira branca
Maduro fez um apelo por diálogo e pediu que "não se caia na tentação de uma contrarrevolução que produza aventuras que sejam lamentadas". "Convoco a um diálogo construtivo, para a ação, para a construção de uma nova economia, para o fortalecimento dos direitos sociais, um diálogo nacional", manifestou. Depois do discurso de Maduro, o presidente legislativo aceitou o convite ao diálogo.
"Agora, se você propõe diálogo, estou completamente de acordo, mas que seja um diálogo com resultados, com medidas concretas e que, quando oferecermos a paz, não seja a 'pax romana', a paz dos túmulos", disse Ramos Allup.
Fronteira fechada
Durante seu discurso, Maduro disse que manterá fechada indefinidamente a fronteira com a Colômbia para combater os "mil demônios" que chegam deste país. Maduro revelou ter ordenado à Força Armada ativar um plano especial para a zona de fronteira e "que se mantenha fechada até que se termine de restituir toda vida social, econômica e a segurança a cada palmo" do país.
"Com o fechamento da fronteira no ano passado se demostrou, de maneira clara, como agem as máfias ao longo deste território: máfias paramilitares da direita colombiana associadas com máfias paramilitares da fronteira venezuelana". O presidente acrescentou que estas organizações criminosas, aliadas ao narcotráfico e ao contrabando de produtos venezuelanos, representam os "mil demônios que chegam da Colômbia".