Magnata Tom Steyer irrompe nas primárias prometendo indenizar descendentes de escravos

Magnata Tom Steyer irrompe nas primárias prometendo indenizar descendentes de escravos

Ativista ambiental, pouco conhecido no cenário político, busca crescer com caucus da Carolina do Sul, onde 60% dos democratas são negros

Correio do Povo e AFP

Tom Steyer tem o exemplo de currículo de Wall Street - Phillips Exeter Academy, estudante de Yale, MBA em Stanford, Goldman Sachs, e magnata de fundos de hedge

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A Carolina do Sul tem uma história complexa, com um passado ligado à escravidão até o início do século XIX. Agora, um pré-candidato democrata quase desconhecido ganha popularidade neste estado do sudeste dos Estados Unidos com a promessa de indenizar os descendentes dos africanos levados como escravos para o país. Um ex-investidor da Califórnia que se transformou em filantropo e ativista ambiental, o bilionário Tom Steyer investiu milhões de dólares apenas no local. A maioria dos recursos foi gasta em anúncios que inundam a televisão.

O homem de 62 anos, que vive em São Francisco, iniciou o fundo de hedge Farallon Capital nos anos 80 e financiou os grupos Need to Impeach e NextGen America. Ele vendeu sua participação, que tinha grandes investimentos em carvão, em 2012, e se apresenta como um outsider progressivo, pedindo medidas como descriminalizar as passagens ilegais de fronteira e expandir a Suprema Corte.

Steyer, um dos principais doadores democratas (foram cerca de 240 milhões de dólares nas três últimas eleições) , não tem experiência política e rejeitou as reservas dos líderes partidários sobre o impeachment. Ele direcionou dezenas de milhões de dólares para comerciais de televisão nos quais argumentou que o presidente era uma ameaça ao país. Suas principais promessas de campanha são lutar contra a mudança climática, proibir a pena de morte, eliminar prisões privadas e indenizar os descendentes de escravos. Entre outras medidas, propõe financiar universidades de comunidades negras historicamente marginalizadas.

Campanha

Em um restaurante mexicano em Myrtle Beach, Steyer fazia, esta semana, uma de suas últimas paradas antes das primárias de sábado, quando será possível medir, pela primeira vez, o sentimento do eleitoral afro-americano em relação aos candidatos democratas. "Tem que dizer a verdade sobre o que aconteceu", disse o pré-candidato, que vestia sua característica camisa azul de mangas dobradas. "Tem que reparar o que se fez e avançar juntos", completou. Ele insistiu que, enquanto o país não abordar, com franqueza, seu "subtexto racial" e oferecer as mesmas oportunidades para todos, não poderá avançar.

Esta semana, Steyer divulgou um vídeo, cujas imagens mostram uma ilustração dos horrores da tortura sofrida pelos escravos, enquanto um narrador diz: "Durante 400 anos, este país construiu um sistema racista que se beneficiou das costas de corpos negros presos. É hora de reparar". O resultado é que este progressista desconhecido no restante do país é um dos candidatos líderes nas pesquisas na Carolina do Sul, atrás do ex-vice-presidente Joe Biden e do progressista Bernie Sanders.

Um público diverso de cerca de 100 pessoas aplaudiu com entusiasmo. "Ele traz algo novo", disse Teresa Skinner, uma enfermeira de 51 anos. "É algo iluminador. Ele vem de outro lugar. Ele vem como um indivíduo que quer que sejamos melhor do que somos. Agora somos uma nação muito dividida".

Temas relevantes

Sua popularidade "se deve, principalmente, ao fato de Tom Steyer estar adotando uma posição muito agressiva em relação às indenizações para os afro-americanos. É um tema em que os demais candidatos não estão tocando", disse à AFP Robert Greene, professor de História da Universidade de Claflin e especialista em assuntos afro-americanos. E a votação na Carolina do Sul, estado onde 60% dos democratas são negros, pode influenciar a decisão dos afro-americanos em nível nacional, completou Greene.

O tema das indenizações não é por acaso. É uma questão debatida há décadas no país e que vem se tornando um movimento. Em abril, os estudantes da Universidade Georgetown, em Washington, votaram a favor de se criar um fundo para indenizar os descendentes dos 272 escravos vendidos pela escola jesuíta para financiar suas operações em 1838. E, entre 2019 e 2018, pelo menos outras duas instituições de ensino no país também criaram fundos destinados a refazer seus vínculos com a escravidão.

Ama Saran, uma aposentada afro-americana que votará em Biden, é cética quanto à proposta, embora reconheça seu valor. Reparar "é importante, acho que é algo que tem que estudar, mas teria que planejar bem isso, porque há muitas diferenças em relação a quem mereceria indenização", comentou. Já os demais pré-candidatos democratas disseram que, se ganharem, vão estabelecer, com muito empenho, uma comissão para analisar a ideia, mas não fazem do tema um assunto de campanha.

Comprando votos?

Os críticos de Steyer argumentam que ele, assim como o bilionário Michael Bloomberg, está "comprando" as eleições com seus recursos sem fundo. "O que está acontecendo é que Steyer gastou centenas de milhões, dezenas de milhões de dólares, milhões de dólares, para fazer campanha lá", disse Biden ao canal CBS, ao ser questionado sobre o motivo de sua vantagem na Carolina do Sul ter diminuído tanto nas últimas semanas.

Brady Quirk-Garvan – presidente do Partido Democrata no condado de Charleston, mas renunciou para apoiar Cory Booker (já fora da corrida) – comentou que não está "impressionado" com Steyer e seus gastos exorbitantes. "Não poderia apoiá-lo, porque me preocupa profundamente a forma como está fazendo campanha e comprando o apoio dos legisladores", comentou, em conversa com a AFP.

Steyer insiste em que sua popularidade não se deve ao dinheiro, mas à sua mensagem. De fato - diz seu porta-voz, Alberto Lammers, em entrevista à AFP em seu QG de campanha en Charleston -, teve de investir uma grande soma para se tornar conhecido, porque não vem da política. "Mas, se você diz que está comprando a eleição, está, na verdade, insultando os eleitores", afirmou Lammers. "Os votos não estão à venda. O que está ressoando é sua mensagem, e as pessoas estão respondendo a ele", defendeu.


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