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María Corina Machado diz que recebeu ajuda americana para sair da Venezuela

Viagem foi marcada pela incerteza até o último momento

María Corina Machado fez sua primeira aparição pública em quase um ano
María Corina Machado fez sua primeira aparição pública em quase um ano Foto : ODD ANDERSEN / AFP

A líder da oposição venezuelana, María Corina Machado, confirmou nesta quinta-feira (11) em Oslo que recebeu apoio do governo dos Estados Unidos para sair da Venezuela, onde vivia na clandestinidade desde agosto de 2024, e viajar até a Noruega para receber o Prêmio Nobel da Paz.

"Sim, recebemos ajuda do governo dos Estados Unidos", disse Corina Machado em resposta a uma pergunta da AFP durante uma entrevista coletiva no Instituto Nobel, em Oslo.

A vencedora do prêmio chegou à capital norueguesa na madrugada desta quinta-feira, em sua primeira aparição pública em quase um ano, após uma fuga arriscada.

Viagem clandestina

A viagem de María Corina Machado foi marcada pela incerteza até o último momento. Embora o Instituto Nobel tivesse anunciado sua presença na cerimônia, a coletiva de imprensa da laureada, marcada inicialmente para terça-feira (9), foi adiada e cancelada. O diretor do Instituto, Kristian Berg Harpviken, chegou a admitir na véspera que não sabia exatamente onde ela estava.

Poucas horas antes da cerimônia, o instituto anunciou que a ativista não estaria presente e que sua filha, Ana Corina, receberia o prêmio em seu lugar. O instituto, contudo, especificou que a líder fazia "uma viagem em circunstâncias extremamente perigosas".

Machado surgiu em público pela primeira vez na varanda do Grand Hotel em Oslo, pouco depois das 2h00 da manhã (22h00 de quarta-feira, horário de Brasília), sendo ovacionada por dezenas de apoiadores eufóricos. Sua última aparição pública havia sido em 9 de janeiro, em Caracas, durante uma manifestação contra a posse de Nicolás Maduro para seu terceiro mandato.

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Como saiu da Venezuela?

Machado entrou na clandestinidade após as eleições presidenciais de julho de 2024, que deram a Nicolás Maduro um terceiro mandato. Os resultados não foram reconhecidos pelos Estados Unidos, pela União Europeia nem por diversos países da América Latina.

Segundo o Wall Street Journal (WSJ), ela usava peruca e disfarce quando iniciou sua viagem na tarde de segunda-feira.

Primeiro, precisou viajar dos arredores de Caracas, onde estava escondida há um ano, até uma vila de pescadores.

Duas pessoas a ajudaram a escapar e o pequeno grupo passou por dez postos de controle militar, evitando a captura em todos eles, antes de chegar à costa venezuelana por volta da meia-noite, de acordo com o jornal.

Na terça-feira, ela fez uma perigosa travessia pelo Mar do Caribe até a ilha de Curaçao. Segundo o WSJ, as forças armadas dos EUA foram notificadas da viagem para evitar que a embarcação fosse alvo de ataques.

Machado chegou a Curaçao por volta das 15h00 de terça-feira. Ela foi recebida por um empresário do setor privado especializado nesse tipo de operação, que a atendeu a pedido do governo Trump, segundo o jornal americano.

Após algumas horas de descanso, ela embarcou em um voo particular para Oslo na manhã de quarta-feira. Chegou sem bagagem, apenas com a roupa do corpo. "Nem tive tempo de tomar banho", contou à BBC.

Voltará para a Venezuela?

"Não direi quando ou como isso acontecerá, mas farei todo o possível para poder retornar e também para pôr fim a essa tirania muito em breve", declarou a líder da oposição, de 58 anos, em inglês.

Machado não especificou como pretende retornar ao seu país. No mês passado, o procurador-geral da Venezuela disse à AFP que Machado seria considerada "foragida" caso deixasse o país, onde é acusada de "atos de conspiração, incitação ao ódio e terrorismo".

Estar na oposição na Venezuela e desafiar o poder do presidente Nicolás Maduro é "muito perigoso", afirmou ela.

Elogiada por seus esforços em prol da democracia na Venezuela, seus adversários criticam sua afinidade com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a quem dedicou seu Nobel.

Maduro acusa Washington de querer derrubá-lo para tomar o petróleo de seu país.