O Exército ucraniano e os separatistas pró-russos trocaram acusações de violar a trégua. Na cidade de Donetsk, principal reduto rebelde, jornalistas da AFP ouviram tiros nos arredores do aeroporto, controlado pelas forças de Kiev. Segundo um porta-voz militar, os separatistas lançaram uma ofensiva contra o aeroporto, que foi repelida pelos militares ucranianos.
Neste contexto de tensão, o Parlamento ucraniano vai estudar na terça-feira dois pontos cruciais do acordo de cessar-fogo, assinado no dia 5 de setembro: uma lei de anistia e outra para criar um estatuto especial que daria mais autonomia às regiões separatistas de Donetsk e Lugansk.
Segundo a Presidência, o projeto de lei não prevê sanções administrativas contra os rebeldes pró-russos, à exceção daqueles responsáveis por "assassinato, violações e atos de terrorismo".
A imprensa ucraniana afirma que também ficariam de fora da anistia os autores do ataque que causou a queda do Boeing da Malaysia Airlines e a morte dos 298 passageiros. No que diz respeito ao "estatuto especial", Kiev estaria disposto a aprovar um governo autônomo provisório que tomaria posse a partir da adoção da lei e que duraria três anos.
No domingo, seis civis, entre eles pelo menos uma mulher, morreram em bombardeios no reduto rebelde de Donetsk, de acordo com as autoridades locais. Esse foi o maior número de civis mortos desde o início do cessar-fogo.
A trégua tem sido violada diariamente e os moradores de algumas localidades próximas a Donetsk denunciam uma situação fictícia. Em cinco meses, o conflito no leste da Ucrânia deixou mais de 2.700 mortos, de acordo com a ONU.
Em uma demonstração de solidariedade com o governo pró-ocidental de Kiev, soldados de 15 países, incluindo os Estados Unidos, iniciaram nesta segunda-feira as manobras militares "Tridente Rápido 14" perto da cidade ocidental de Lviv.
Os Estados Unidos devem enviar 200 militares, na primeira mobilização deste tipo desde o início do levante pró-russo no leste da Ucrânia, em abril.
Poucos dias antes de uma visita a Washington do presidente ucraniano, Petro Poroshenko, a Rússia acusou os Estados Unidos de atiçar o conflito por motivos puramente estratégicos. Já governo de Kiev denuncia uma tentativa russa de eliminar a Ucrânia.
Em uma troca de farpas nesta segunda-feira, o primeiro-ministro da autoproclamada República Popular de Donetsk acusou o Exército ucraniano de violar o cessar-fogo e de provocação.
"O governo de Kiev utiliza este cessar-fogo para reagrupar suas forças e nos atacar novamente", disse Alexandre Zakharshenko.
O conflito no leste industrial da Ucrânia deixou as relações entre Rússia e Ocidente em seu pior nível desde a Guerra Fria, gerando o risco de um conflito de maiores proporções na Europa Oriental.
A organização para a Segurança e a Cooperação na Europa (OSCE), mediadora da trégua, afirmou que seus supervisores haviam presenciado ataques de artilharia em um distrito de Donetsk no domingo.
"As ações terroristas ameaçam o plano de paz do presidente da Ucrânia", afirmou o porta-voz do Conselho de Segurança e Defesa do governo de Kiev, Volodymyr Polyovy.
Para tentar conter o agravamento do conflito, o presidente americano Barack Obama já anunciou uma série de sanções econômicas contra Moscou. Medidas semelhantes foram adotadas pela União Europeia. Analistas consideram que o impacto já é evidente e alertam para uma grande possibilidade de a economia russa entrar em recessão.
O chanceler russo, Serguei Lavrov, acusou os Estados Unidos de tentar utilizar esta crise para romper os vínculos econômicos entre a União Europeia e a Rússia.
Além disso, os Estados Unidos declararam nesta segunda-feira que não reconhecem as eleições legislativas realizadas na Crimeia no domingo, as primeiras desde a incorporação da península ucraniana à Rússia, em março.
"Os Estados Unidos continuam condenando a ocupação e suposta anexação do território ucraniano por parte da Federação Russa e sua violação da soberania e integridade territorial ucranianas", disse a porta-voz do Departamento de Estado, Marie Harf.