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O mega julgamento por estupro que sacode a França

Durante uma década, entre 2011 e 2020, Dominique Pelicot drogou sua mulher para estuprá-la ao lado de dezenas de desconhecidos

Gisèle Pelicot insistiu que as audiências acontecessem a portas abertas
Gisèle Pelicot insistiu que as audiências acontecessem a portas abertas Foto : Christophe SIMON / AFP/CP

Gisèle Pelicot se tornou uma heroína feminista por se atrever a desafiar os homens acusados de estuprá-la enquanto estava drogada por seu marido. 'A vergonha, não somos nós que temos que senti-la', disse no julgamento que acontece na França. Seu marido, Dominique Pelicot, e outros 50 homens se sentam desde setembro no banco dos réus, em um julgamento que já está na metade e desencadeou uma onda de indignação e protestos no país europeu.

As primeiras oito semanas de audiências colocaram a questão do consentimento, a violência machista e o uso de drogas para cometer abusos sexuais no primeiro plano. Durante uma década, entre 2011 e 2020, Dominique Pelicot drogou sua mulher para estuprá-la ao lado de dezenas de desconhecidos.

Os vídeos e imagens das agressões sexuais que o mesmo gravou foram cruciais para identificar o resto dos acusados. Todos podem enfrentar a até 20 anos de prisão. Gisèle Pelicot, de 71 anos, queria mexer com as consciências e insistiu que as audiências acontecessem a portas abertas. Optou por isso para que 'todas as mulheres vítimas de estupro digam a si mesmas 'se a senhora Pelicot fez isso, podemos fazer também''.

'Não quero que [as vítimas] tenham mais vergonha. A vergonha, não somos nós que temos que senti-la, são eles', declarou ante o tribunal. 'Expresso, sobretudo, a minha vontade e determinação para que mudemos essa sociedade', insistiu. As audiências na corte de Avignon, no sul da França, foram suspensas durante uma semana e serão retomadas em 4 de novembro. A sentença é esperada para 20 de dezembro.

Agressões gravadas por vídeo

Durante o julgamento, surgiu o contraste entre os fatos e o que parecia ser um casamento comum. Gisèle Pelicot, que foi casada com Dominique durante 50 anos, o descreveu como um marido praticamente 'perfeito'. Mas o agora ex-marido confessou uma série de agressões cometidas durante a última década que passaram juntos.

Dominique colocava ansiolíticos na comida e na bebida de sua mulher para deixá-la inconsciente pouco antes de estuprá-la e ver como pelo menos 50 desconhecidos recrutados pela Internet a estupravam. Os agressores, de entre 26 a 74 anos, eram 'gente comum' bem integrada à sociedade.

Ao lado de Pelicot, apenas 14 deles reconheceram as acusações de estupro, mesmo com as agressões gravadas e meticulosamente arquivadas pelo ex-marido. Muitos dos acusados insistem que foram convidados, até mesmo manipulados por Dominique Pelicot, para realizar as 'fantasias de um casal libertino'. 'São estupradores, estupram e ponto. E quando se desculpam, se desculpam por eles mesmos', reagiu Gisèle Pelicot.O julgamento recorda que em quase a metade dos casos, as agressões sexuais são perpetradas por alguém conhecido da vítima, segundo o relatório de 2022 do Ministério do Interior francês.

Flores e aplausos

O julgamento, que começou em 2 de setembro, sacode a França e pautou os jornais do mundo inteiro. Os meios - 138 estão credenciados, 57 do exterior - gravaram os momentos em que Gisèle Pelicot chega ao tribunal, cercada de aplausos e ramos de flores.

O caso dos 'estupros de Mazan', o nome da cidadezinha onde as agressões aconteceram, desencadeou protestos. Nos jornais, foram publicados artigos sobre padrões de masculinidade e celebridades do mundo inteiro se pronunciaram a respeito.

O julgamento saiu dos tribunais. Nos muros de Avignon e outras cidades apareceram cartazes em apoio a Gisèle e a outras vítimas de violência sexual, que denunciam 'a cultura do estupro'. O ministro francês da Justiça, Didier Migaud, disse que estaria disposto a incluir a noção do consentimento na definição de estupro na legislação francesa. Mas também pediu cautela quanto aos 'termos' empregados para revisar as normas.

À espera do veredicto em 20 de dezembro, muitos esperam que a midiatização do julgamento por estupro ajude as vítimas de violência sexual sejam enfim ouvidas e acreditadas.

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