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O que é o "raro fenômeno atmosférico" que pode ter provocado apagão em Portugal e Espanha

Os dois países estão paralisados pela falta de energia que atinge milhões de pessoas

Os dois países estão paralisados pela falta de energia que atinge milhões de pessoas
Os dois países estão paralisados pela falta de energia que atinge milhões de pessoas Foto : MIGUEL RIOPA / AFP / CP

Um grande blecaute de energia afeta nesta segunda-feira Portugal e Espanha, deixando dezenas de milhões de pessoas sem luz. O apagão, que iniciou às 12h30 do horário local, deixou o transporte público parado e as ruas congestionadas. Embora a energia já tenha voltado em poucos locais dos dois países, o apagão prossegue. O governo espanhol buscava entender a causa.

As investigações sobre a causa do apagão ainda estão em andamento, mas o operador de rede elétrica de Portugal, REN, aponta para um raro “fenômeno atmosférico” ocorrido na Espanha como possível origem. Conforme o operador português, em entrevista à agência Reuters, trata-se de uma “vibração atmosférica induzida” causada por variações extremas de temperatura, que teria gerado oscilações anômalas nas linhas de alta tensão (400 kV), afetando a sincronização da rede elétrica europeia. O primeiro-ministro português descartou, até o momento, a hipótese de um ciberataque.

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O operador espanhol Red Eléctrica descreveu o evento como “excepcional e totalmente extraordinário” e previu a recuperação do fornecimento em horas, embora a normalização completa em Portugal possa demorar até uma semana.

Em resposta, autoridades de ambos os países convocaram reuniões de emergência e orientaram a população a evitar deslocamentos desnecessários. As linhas de alta tensão podem sofrer diversos tipos de vibração. Uma delas é a vibração atmosférica induzida. Esse fenômeno gera oscilações de baixa frequência, entre 0,1 e 10 Hz. Afeta condutores e componentes da rede elétrica.

Diferente da vibração causada pelo vento, a atmosférica tem outra origem. Surge da interação entre fenômenos elétricos e condições do tempo. O processo, de acordo com a MetSul Meteorologia, começa com uma descarga (não um raio). Ela ocorre em alta umidade ou em superfícies irregulares dos cabos. A descarga então ioniza o ar ao redor das linhas, formando partículas carregadas, que interagem com o campo elétrico dos condutores. Isso cria forças eletro-hidrodinâmicas periódicas, que por sua vez geram ondas de pressão no ar. As ondas causam a vibração dos condutores e de outras partes do sistema, explica a MetSul. A vibração atmosférica induzida é única, não está ligada diretamente a forças mecânicas, como o vento ou o gelo. Suas consequências variam no tempo.

A longo prazo, pode causar fadiga nos materiais. Ou seja, fios, isoladores e suportes ficam mais frágeis. Com isso, podem surgir fissuras e afrouxamento de conexões.

O desgaste em pontos de contato também se acelera. A curto prazo, a vibração pode aumentar o ruído perto das linhas. Em casos raros, pode afetar instrumentos sensíveis. Também pode se somar a outras vibrações, aumentando os danos.

Mas a hipótese ventilada pelo operador elétrico português de um fenômeno muito raro chamado de “vibração atmosférica induzida” é recebida com ceticismo por especialistas na península ibérica. Segundo essa teoria, as oscilações causaram falhas de sincronização entre os sistemas elétricos, observa a REN, resultando em perturbações sucessivas em toda a rede europeia.

José María Madiedo, astrofísico do Instituto de Astrofísica da Andaluzia (IAA-CSIC), acredita que uma vibração atmosférica (que pode ser causada por um raio ou um som alto) parece “muito estranha”. De fato, o especialista descarta a possibilidade de que tenha sido um fenômeno natural: “A primeira coisa que pensei foi que poderia ser algo parecido com uma tempestade solar como o evento Carrinton”, explica ele ao jornal ABC, referindo-se à tempestade solar extrema em 1859.

O problema com essa explicação é que se trata de um fenômeno tão localizado que não se encaixa na hipótese da tempestade solar. “Um evento teria afetado o planeta inteiro, não apenas a Espanha e Portugal”, ressalta Madiedo. “Também descarto que tenha sido um fenômeno atmosférico”, afirmou.