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ONU adverte sobre crise alimentar mundial após choque energético

Custos de energia afetam pequenos agricultores e impulsionam alta de preços agrícolas, alimentando temor global

Custos de energia afetam pequenos agricultores e impulsionam alta de preços agrícolas, alimentando temor global
Custos de energia afetam pequenos agricultores e impulsionam alta de preços agrícolas, alimentando temor global Foto : Marcos Santos / USP Imagens / CP

Os custos da energia afetam os pequenos agricultores e impulsionam a alta dos preços dos produtos agrícolas, alimentando o temor de uma crise alimentar mundial, afirmou à AFP o chefe da agência da ONU para o desenvolvimento agrícola."Os preços agrícolas mundiais aumentaram 13% no terceiro trimestre" e a tendência está acelerando, advertiu o Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (Fida), uma entidade das Nações Unidas.

O aumento dos preços dos hidrocarbonetos, associado ao conflito no Oriente Médio, encareceu drasticamente os fertilizantes e os combustíveis este ano, elevando os custos de produção agrícola e de transporte. "Como resultado, nos próximos seis a nove meses deveremos ver a inflação alimentar atingir com força as populações menos capazes de suportar estes custos", declarou à AFP o presidente do Fida, Álvaro Lario.

Em escala mundial, "quase uma em cada três pessoas não pode arcar com uma alimentação saudável. O aumento do custo dos alimentos saudáveis pesa muito sobre o que os lares podem se permitir consumir", ressaltou o economista espanhol.

Segundo dados da ONU, cerca de 260 milhões de pessoas no mundo sofrem de insegurança alimentar. Como a alimentação representa uma parte importante do orçamento das famílias nos países em desenvolvimento, os aumentos de preços são sentidos de forma significativa, assinalou Lario, entrevistado em meio às reuniões do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial em Bangcoc.

Segundo o Fida, os pequenos agricultores, responsáveis por um terço da produção mundial de alimentos e por até 70% dessa produção em vários países em desenvolvimento, são os mais afetados pelo impacto do aumento dos preços da energia."Os pequenos agricultores utilizam 200 quilos de fertilizantes por hectare por ano no Sudeste Asiático. Isso terá inevitavelmente consequências para a produtividade, os rendimentos e, portanto, os preços", alertou Lario.

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Perdas de colheitas na América Latina

Diante desta ameaça, os países do G7 se comprometeram na quinta-feira a mobilizar 2,5 bilhões de dólares (12,6 bilhões de reais) para ajudar os países em risco de insegurança alimentar, com atenção especial aos fertilizantes. Entretanto, as crises estão se acumulando. O fenômeno climático El Niño põem em risco agora as colheitas na África, na Ásia e na América Latina.

"Na América Central já estão sendo registradas perdas nas colheitas de milho e feijão, especialmente em El Salvador e Honduras", detalhou. Na Índia, "a monção é irregular, o que reduz a disponibilidade de água muito abaixo dos níveis habituais.

Quase metade das terras cultivadas do País depende das chuvas", advertiu. Segundo especialistas da Oxford Economics, Filipinas, Indonésia e África do Sul estão especialmente expostas às perdas de produtividade agrícola provocadas pelo El Niño. "A curto prazo, as possibilidades de adaptação costumam ser limitadas. Os ciclos de cultivo são fixos e recorrer a fontes alternativas de fornecimento pode ser caro ou difícil", alertam.

Para combater a insegurança alimentar, o FMI recomenda ajudar famílias vulneráveis por meio de transferências focalizadas e programas de alimentação escolar.Lario pediu, por sua vez, um investimento "com uma perspectiva de três a cinco anos" a fim de tornar os sistemas alimentares "resilientes" e mais autossuficientes, por meio do fortalecimento da irrigação, do armazenamento, das unidades locais de processamento e do acesso aos mercados locais.

O Fida, que atua em cerca de 90 países, tem como objetivo combater a pobreza rural e a fome. Contudo, diante da magnitude das necessidades, busca atrair capital privado. "Está claro que a agricultura é um negócio, depende da saúde do solo e da disponibilidade de água, dois elementos muito afetados pela mudança climática", ressaltou Lario.

O dirigente também recordou que "menos de 1% do financiamento climático mundial é destinado aos pequenos agricultores. É necessário investir em irrigação de precisão, sementes resistentes à seca e na conservação dos manguezais, que protegem as lavouras das zonas costeiras".