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"Os autores dos atentados são franceses ou residentes na França", aponta Pierry Lévy

Atentados ao país europeu geram debates entre especialistas

A discussão sobre a França continua. O terrorismo produz mortes e perplexidade. O intelectual, aquele que – desde Émile Zola com seu “eu acuso” no célebre caso Dreyfus – sai da sua especialidade para falar das questões que sensibilizam as sociedades em dado momento, olha o passado, examina o presente, especula sobre o futuro.

O que esperar? O que fazer? Pierre Lévy, filósofo francês de origem judaica, nascido na Tunísia, 60 anos, é professor na Universidade de Ottawa, no Canadá. Especialista das novas tecnologias, com análises e estudos sobre cibercultura, ciberdemocracia e inteligência coletiva, Lévy vê três fatores para explicar o fato de a França continuar na mira dos terroristas. O primeiro é consenso entre os intelectuais: “O engajamento da França na linha de frente na luta contra a Jihad no Mali, no Iraque, na Síria…”.

É o preço da exposição e da intervenção em países divididos politicamente, mas majoritariamente muçulmanos. A história, com suas dívidas e acertos de contas jamais resolvidos, também retorna. Pierre Lévy assinala: “Não podemos esquecer que a França tem um passado colonial na África do Norte e no Oriente Médio”. “A França é o país europeu com o maior número de muçulmanos. Os autores dos atentados são franceses ou residentes na França.” Lévy, pensador atento à multiplicidade de causas de um fenômeno, pondera: “Essas razões não explicam tudo”.

Num mundo de tecnologias cada vez mais poderosas e facilitadoras da cooperação entre as pessoas, os terroristas usam as ferramentas da internet para adquirir armas ou simplesmente para construir redes de articulação das suas ideias. As redes sociais podem ser também redes de criação e fortalecimento de grupos voltados para o terror. Para Lévy, há mais atentados em países muçulmanos: “E a França é o que se tem na Europa, demograficamente, de mais próximo disso”.

Bertrand Ricard, 49 anos, da Universidade de Reims, doutor em Sociologia pela Sorbonne, Paris V, sintetiza o cenário em cores sombrias: “Muitos fatores se entrelaçam para explicar os atentados na França. Em primeiro lugar, a laicidade, que é sentida pelos muçulmanos radicais como um horror. Em seguida, temos a presença militar francesa em lugares onde os Estados Unidos da América não querem mais ir. Por fim, um aglomerado de imigrantes muçulmanos desorientados ou perdidos vivendo na França, mas odiando nosso país por entender que lhes faltam oportunidades”.

Ricard é cético quanto ao futuro mais imediato. Cada atentado parece levar mais água ao moinho da Frente Nacional de Marine Le Pen, candidata à presidência da França em 2017: “A falta de oportunidades existe, mas é, muitas vezes, uma desculpa para justificar o abominável. De qualquer maneira, a coisa vai mal para nós. Estou bastante pessimista. O ultraliberalismo está levando o mundo para o buraco sem retorno. A extrema-direita deve ganhar as próximas eleições presidenciais francesas. Os cidadãos estão acuados”. O futuro não depende só da razão. O seu inimigo é a irracionalidade.