A tradição católica utiliza a escolha do nome oficial do novo papa como “mensagem” sobre o estilo e a base “filosófica” do recém empossado. Nesse aspecto, Robert Francis Prevost, eleito papa nesta quinta-feira, se coloca em posição ideologicamente estratégica ao adotar o nome Leão XIV. Isso porque seu predecessor onomástico foi figura relevante na história recente do cristianismo. O italiano Gioacchino Vincenzo Raffaele Luigi Pecci, nomeado Leão XIII, liderou a Igreja entre fevereiro de 1878 e julho de 1903 num contexto particularmente desafiador para as instituições tradicionais. O maior desafio era articular o pensamento cristão com o pensamento moderno.
No encerramento do século XIX, a ciência conduzia realizações técnicas inéditas e transformadoras, o conhecimento passava a contar com novas e revolucionárias abordagens (como a psicanálise e a moderna sociologia), e novos princípios norteavam a vida – ao menos no “Ocidente” – nas sensíveis questões sociais e econômicas. Leão XIII defendeu a atuação da Igreja na sociedade em bases novas, sobretudo sociológicas, e via como missão pastoral uma espécie de justiça social que se mantivesse distante tanto do socialismo quanto do “capitalismo selvagem”.
Foi nesse sentido que promulgou a famosa encíclica Rerum Novarum, de 1891, em que destacou os direitos dos trabalhadores, a necessidade de salários justos, condições de trabalho decentes e a liberdade para a constituição de sindicatos. No mesmo documento, o papa defendia o direito à propriedade e à iniciativa privada, procurando harmonizar doutrinariamente as relações entre capital e trabalho. Dessa forma, Leão XIII estendia o alcance da participação da Igreja nas questões sociais, enquanto se equilibrava em um posicionamento ideologicamente centrista, concedendo tanto a conservadores e revolucionários “direito de existência” e legitimidade.
Sua atitude de encarar as questões contemporâneas candentes era algo incomum e colocou a Igreja com clareza (ao centro) no cenário das grandes disputas político-ideológicas, exercendo o papel de mediadora entre posições antagônicas. O capitalismo liberal, cuja “roupagem” naquele momento histórico particular incluía as faces mais brutais do colonialismo e do imperialismo europeu e americano, enfrentava a oposição revigorada do socialismo na forma de greves de massa, revoltas, protestos e atentados. Leão XIII sentiu a urgência de integrar a Igreja ao contexto. Em tempos de conceitos políticos ameaçadores (como o de “pós-verdade”) e novos radicalismos, ao ser escolhido sucessor do “progressista” Francisco I, Robert Francis Prevost, agora Leão XIV, provavelmente levou em conta o significado de manter a voz da milenária instituição no debate.