Os portugueses vão às urnas hoje para eleger um novo Parlamento pela terceira vez em três anos. As eleições foram convocadas depois de o primeiro-ministro, o conservador Luís Montenegro, perder um voto de confiança por suspeita de suborno, apenas um ano depois de assumir o cargo.
Montenegro convocou o voto de confiança no Parlamento português após revelações de que a Spinumviva, grupo de consultoria de sua família, havia recebido pagamentos de uma empresa que buscava renovar contratos públicos.
Desde então, a imprensa divulgou que mais seis clientes da consultoria também têm negócios com o governo.
O premiê nega ter recebido dinheiro e informou que transferiu suas ações da consultoria para a mulher e os filhos.
Apesar das suspeitas, a coligação de Montenegro, a Aliança Democrática (AD), formada pelo seu Partido Social-Democrata (PSD) e o CDS - Partido Popular, lidera as pesquisas, com 32%.
Em seguida, estão o Partido Socialista (27%) e a legenda de ultradireita Chega! (17%). O Iniciativa Liberal, em quarto lugar, aparece com 6% e pode ser crucial para o Aliança Democrática formar a maioria e governar.
Montenegro chegou ao poder há um ano após vencer uma eleição também antecipada, por causa da renúncia do premiê António Costa, do Partido Socialista.
Costa deixou o cargo no segundo ano de governo em decorrência de outro escândalo, no qual a polícia encontrou 76 mil no escritório de seu chefe de gabinete e prendeu cinco pessoas de sua equipe sob suspeita de tráfico de influência.
Renúncia
O ex-premiê socialista negou o caso, mas se afastou do cargo por decisão própria com a justificativa de que uma investigação de tal tipo “não seria compatível” com um primeiro-ministro. Uma semana depois, o Ministério Público afirmou que havia errado durante as investigações.
Montenegro encerrou nove anos de governo socialista. Sua coligação conquistou a maioria no Parlamento com uma margem mínima, de cinco deputados a mais que o Partido Socialista.
A disputa também marcou o crescimento da ultradireita em Portugal, com o partido Chega! alcançando 18% dos votos, o equivalente a 50 deputados - em 2019, eles haviam obtido um deputado e 1,4% dos votos. Na ocasião, Montenegro se negou a fazer uma aliança para governar com o Chega! e repetiu a promessa nestas eleições.
Desde que assumiu o governo, ele estabeleceu uma agenda de aumentos salariais para funcionários públicos e de aposentadoria e pensões para lidar com o aumento do custo de vida em Portugal.
Entretanto, o país apresenta problemas no sistema de saúde, na oferta de moradia e na carga tributária.
O premiê espera que as ações do início do mandato reflitam em uma nova vitória e com uma margem maior que nas últimas eleições. Ele também conta com uma possível aliança com o Iniciativa Liberal, que pode garantir a maioria absoluta para a AD governar com maior estabilidade.
Riscos
Isso pode ser desafiado, no entanto, pelo Partido Socialista e pelo Chega!. O candidato socialista Pedro Nuno Santos, de 48 anos, acusa o premiê de ter antecipado a eleição para não se explicar sobre a sua empresa de consultoria a uma comissão parlamentar de inquérito e não deve reduzir a pressão sobre o futuro governo.
A ultradireita, por outro lado, ameaça roubar votos dos conservadores moderados. Após sair de 1 para 50 deputados nas últimas eleições, a missão do Chega! é se consolidar como força política relevante em Portugal.
Liderado por André Ventura, um advogado e ex-comentarista de futebol, o partido explora o descontentamento de portugueses com os imigrantes que chegaram na última década e os efeitos das políticas de austeridade após a crise de 2008, que afetaram o Estado de bem-estar social.
Ventura encerrou a campanha eleitoral na última semana, após sofrer dois estranhos episódios de mal-estar, que o fizeram cancelar sua agenda política na reta final. Segundo a imprensa portuguesa, ele teria tido um pico de tensão arterial e espasmos no esôfago.