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Posição de Bolsonaro coloca em dúvida acordo entre União Europeia e Mercosul

Bloco europeu teme acenos contrários ao bloco latino-americano e discurso militarista do presidente eleito

Bloco europeu teme acenos contrários ao bloco latino-americano e discurso militarista do presidente eleito
Bloco europeu teme acenos contrários ao bloco latino-americano e discurso militarista do presidente eleito Foto : Carl de Souza / AFP / CP
Os sinais contraditórios do presidente eleito Jair Bolsonaro lançam dúvidas sobre o acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia (UE), que após quase 20 anos se encontra na reta final, apontam analistas. "O ministro da Fazenda 'in pectore' Paulo Guedes disse na noite de domingo que o Mercosul não era prioridade e que preferiam se abrir mais ao mundo e em busca de acordos bilaterais", relatou Carlos Malamud, do Real Instituto Elcano, com sede Madri.

Isso dá "sinais contraditórios", segundo este analista, já que "por um lado, busca a abertura ao mundo, e o Acordo de Associação com a UE implica exatamente nisto", mas por outro não quer tornar o Mercosul "o eixo de sua política exterior e comercial".

Durante a campanha, Bolsonaro falou em enfatizar os "acordos bilaterais", uma visão que vai de encontro com a negociação em curso entre os blocos europeu e sul-americano. Para Christophe Ventura, do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas (Iris) de Paris, as declarações do ultraliberal Guedes "colocam a bola no campo dos sócios do Mercosul para que esses últimos, especialmente a Argentina, cortejem Bolsonaro para ele continuar".

Esta seria uma estratégia similar à adotada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para renegociar o Acordo de Livre-Comércio da América do Norte (Nafta), em vigor desde 1994, com seus vizinhos Canadá e México.  Cinco anos depois, Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, de um lado, e a UE, de outro, iniciaram as negociações, ainda hoje em curso, para conseguir um acordo comercial que, se confirmado, seria o mais importante já assinado pelo bloco europeu.

"O Brasil é um importante sócio em nossas negociações com o Mercosul (...) A UE está disposta a continuar reforçando esta colaboração com o novo governo", indicou um porta-voz da Comissão Europeia. Contudo, a incerteza paira na capital europeia. Uma fonte do Executivo comunitário reconheceu que a UE está "à espera" das intenções de Bolsonaro, que assume em 1º de janeiro.

A sombra dos militares


Além do comércio, as declarações misóginas, homofóbicas e racistas de Bolsonaro se chocam com a defesa que a UE faz dos direitos humanos e da luta contra a mudança climática em suas relações diplomáticas. "Ele é obviamente um populista de extrema direita, atrás dele vemos a sombra dos militares que estiveram no poder por muito tempo no Brasil, constituindo uma terrível ditadura", alertou o comissário europeu para Assuntos Econômicos, Pierre Moscovici.