A primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, está na Groenlândia nesta quarta-feira (24) para pedir desculpas em nome do Estado às vítimas de uma campanha de contracepção forçada que durou décadas no território autônomo. O escândalo envolve a inserção de dispositivos intrauterinos (DIU) em quase 4.500 mulheres inuítes da Groenlândia — quase metade em idade fértil — sem o consentimento das pacientes, entre o final da década de 1960 e 1992. O objetivo da campanha era reduzir a taxa de natalidade da população originária.
Frederiksen classificou o momento como a conclusão de "uma página sombria de nossa história comum". Muitas das vítimas sofreram problemas físicos e psicológicos, e algumas ficaram estéreis. A parlamentar Aaja Chemnitz, que representa a Groenlândia no Parlamento dinamarquês, destacou a importância da cerimônia de desculpas para as vítimas e para a sociedade como um todo, chamando-a de um "segundo passo no processo de reconciliação".
Fundo de reconciliação e pressão externa
Além do pedido de desculpas formal, Frederiksen anunciou a criação de um "fundo de reconciliação" para indenizar as vítimas da campanha de contracepção, bem como outros groenlandeses que sofreram discriminação por sua origem inuíte. O advogado Mads Pramming, que representa cerca de 150 vítimas que processaram o Estado dinamarquês, considerou a medida positiva, afirmando que seus clientes "não estão satisfeitos apenas com um pedido de desculpas".
A deputada Chemnitz afirmou que a decisão dinamarquesa é um resultado direto da "pressão externa", especialmente após o presidente dos EUA, Donald Trump, manifestar publicamente o desejo de tomar o controle da Groenlândia, ilha com localização estratégica e rica em recursos naturais. A pressão externa teria obrigado a Dinamarca a "redobrar seus esforços" para reduzir as tensões com o território ártico.
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Histórico do escândalo
O escândalo veio à tona há alguns anos, mas ganhou grande visibilidade em 2022, após uma série de podcasts revelar a real dimensão da campanha de contracepção. Governos da Dinamarca e Groenlândia concordaram em iniciar uma investigação independente. Uma investigação separada, que busca determinar se a campanha dinamarquesa pode ter constituído um "genocídio", deve ter seu relatório final publicado no início de 2026. A postura de Frederiksen de reconhecer as injustiças rompe com a tradição de seus antecessores, que se mostravam relutantes em pedir desculpas.