O discurso foi proferido após diversos dias de protestos da população contra o regime em todo o país. Durante a sexta-feira, o regime de Hosni Mubarak fez um apelo ao exército e decretou o toque de recolher em três grandes cidades do Egito, entre elas o Cairo, para enfrentar o movimento de contestação que se tornava cada vez mais amplo.
No quarto dia de protestos, os mais importantes, desde a chegada ao poder de Mubarak, em 1981, os sinais de preocupação se multiplicavam no exterior. Os Estados Unidos exigiram de seu aliado que contenham as forças de ordem e se comprometam com reformas políticas "imediatas".
Os manifestantes pedem a saída de Mubarak que, por sua vez, ordenou ao exército - espinha dorsal de seu regime - fazer respeitar a segurança nas ruas, junto com a polícia. O toque de recolher foi decretado no Cairo, em Alexandria (norte) e em Suez (leste) entre 18h (16h GMT) e 7h (5h GMT), até nova ordem. A agência oficial Mena havia informado antes que a medida havia sido ampliada para todo o país, voltando atrás na informação, em seguida.
Segundo fontes médicas, pelo menos 20 pessoas morreram e centenas ficaram feridas nos confrontos desta sexta-feira, o que eleva o número de mortos a 27, em todo o país, desde o dia 25 de janeiro. Dezenas de milhares de egípcios responderam ao apelo para participar do "Dia de Ira" à saída das mesquitas depois das orações de sexta-feira para pedir o fim do regime de Mubarak, no poder há 30 anos.
Na capital egípcia, duas delegacias foram incendiadas, assim como a sede do partido no poder. A multidão enfrentou a pedradas as forças de segurança, que usaram granadas de gás lacrimogêneo, jatos d'água e balas de borracha para tentar dispersá-la. Em Suez, manifestantes se apoderaram das armas de uma delegacia, pondo fogo no prédio em seguida. Cerca de mil pessoas haviam sido detidas até a manhã de sexta-feira.
O protesto está inspirado na "Revolução dos jasmins", um levantamento popular que derrubou neste mês o presidente tunisiano Ben Ali, no poder havia 23 anos, e gerou uma onda de contestação em todo o mundo árabe.
O presidente da Comissão de Relações Exteriores da Assembleia, também membro do Partido Nacional Democrata no poder, pediu nesta sexta-feira ao presidente empreender "reformas sem precedentes" para evitar uma "revolução". "Em nenhuma parte do mundo a segurança é capaz de pôr fim à revolução", disse Mustafá Al Fekki à televisão Al Jazeera.
O opositor e Prêmio Nobel da Paz Mohamed ElBaradei, que se disse disposto a liderar um governo de transição, também participou de manifestações no Cairo. A jornada recebeu apoio da Irmandade Muçulmana, principal força da oposição, que até agora apoia sem grande entusiasmo as marchas convocadas por núcleos de jovens com aspirações democráticas.
O presidente americano, Barack Obama, frisou que "a violência não é uma uma solução para os problemas do Egito". Nesta sexta-feira, a Casa Branca considerou a situação "profundamente preocupante" e pediu ao governo egípcio o "respeito aos direitos fundamentais, para evitar a violência e permitir as comunicações".