A queda de Mohamed Mursi, o primeiro presidente eleito democraticamente da história do Egito, coloca fim a um ano de poder islamita marcado por diversas crises e fortes protestos populares, e abre caminho para uma delicada transição no país que é profundamente dividido entre partidários e opositores do presidente deposto.
O golpe militar árabe mais populoso do mundo provoca inquietação no exterior. Os Estados Unidos pediram para analisar as implicações legais na importante ajuda militar que concede ao Egito, enquanto a Rússia apelou por moderação a todas as partes.
Já o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, pediu para que um regime civil seja restabelecido rapidamente. "É preciso restabelecer o quanto antes um governo civil que reflita as aspirações do povo", declarou à imprensa durante uma viagem a Copenhague, acrescentando que a situação continua sendo instável e que apenas se resolverá com a união de todas as forças políticas.
Na praça Tahrir do Cairo, milhares de egípcios celebraram durante toda a noite a queda de Mursi, menos de três anos depois de festejarem no mesmo lugar a renúncia de Hosni Mubarak, em fevereiro de 2011. Nesta quinta-feira ainda havia alguns grupos de manifestantes, enquanto os alto-falantes transmitiam música patriótica. "Vitória para a legitimidade popular", "O presidente deposto pela legitimidade popular", "O Egito está de volta", intitulava a imprensa governamental e independente. Já o jornal Horreya al-Adala da Irmandade Muçulmana ignorou a deposição e falou sobre as manifestações a favor de Mursi.
Semana tensa
A situação política se agravou na última segunda-feira, um dia depois de grandes manifestações contra Mursi, que deixaram várias vítimas. O ex-presidente era acusado pelos opositores de querer instaurar um regime islamita autoritário a favor de seu movimento, a Irmandade Muçulmana.
Os militares fixaram no mesmo dia um ultimato a Mursi de 48 horas e na quarta-feira o ministro da Defesa, o general Abdel Fatah al-Sisi e novo homem forte do país, anunciou a destituição e a suspensão da Constituição.
Após o anúncio, as forças de segurança o detiveram e o levaram à sede do ministério da Defesa. Mursi havia afirmado em um vídeo que continuava sendo "o presidente eleito do Egito" e denunciou um "golpe de Estado completo, rejeitado pelos homens livres do país".
Medidas contra a Irmandade Muçulmana
O desenlace aumenta os temores de novos episódios de violência. Desde 26 de junho, 57 pessoas morreram, sendo 10 delas na noite de quarta-feira, em confrontos com as forças de segurança e nos confrontos entre partidários e opositores a Mursi. O ministério do Interior advertiu que responderá com firmeza aos distúrbios e tanques foram mobilizados nas ruas do Cairo.
Entre outras medidas contra a Irmandade Muçulmana, que chegou ao poder no ano passado após 30 anos de clandestinidade, o Exército colocou sob prisão domiciliar a cúpula presidencial e foram emitidas 300 ordens de prisão contra os membros do movimento. Dois de seus líderes foram detidos, Saad al Katatni e Rashed Bayumi.
Uma fonte da Justiça, que não se identificou, indicou que também foi emitida uma ordem de prisão contra o chefe da Irmandade Muçulmana, Mohamed Badie. Um funcionário de alto escalão do Exército, que também pediu anonimato, confirmou a detenção "de forma preventiva" de Mursi, que, assim como Badie e vários líderes do movimento, está proibido de deixar o território egípcio.
O "mapa do caminho" da transição política foi anunciado pelo general Sisi após negociações com o representante da oposição, Mohamed ElBaradei, e com os principais líderes religiosos muçulmanos e cristãos do país. "Além da suspensão provisória da Constituição", o mapa do caminho prevê que "o presidente interino Adli Mansur se ocupará dos assuntos do país durante o período de transição até a eleição de um novo presidente". Sisi, porém, ressaltou que o Exército "permanecerá afastado da política".
As Forças Armadas, que dirigiram o país por 16 meses entre a renúncia de Mubarak e a eleição de Mursi, em junho de 2012, não informaram o tempo da transição. Segundo o líder opositor Amr Musa, já começaram as consultas para formar um novo governo no Egito, que terá "plenos poderes".