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Quem era Alex Pretti, o enfermeiro morto por agentes da imigração em Minneapolis

Análise do The New York Times aponta que a vítima segurava um celular, e não uma arma, no momento da abordagem do ICE

O Departamento de Segurança Interna afirmou que os agentes do Serviço de Imigração e Controle de Alfândega agiram em legítima defesa durante operação
O Departamento de Segurança Interna afirmou que os agentes do Serviço de Imigração e Controle de Alfândega agiram em legítima defesa durante operação Foto : Roberto Schimdt / AFP / CP

Membros da família do homem morto por agentes federais de Imigração em Minneapolis (EUA) neste sábado, 24, dizem que ele era um enfermeiro que trabalhava em unidades de tratamento intensivo no hospital do Departamento de Veteranos da cidade. Os familiares disseram que Alex Jeffrey Pretti, 37 anos, "se importava profundamente com as pessoas e estava chateado com a repressão à imigração do presidente Donald Trump em sua cidade".

A morte ocorreu menos de três semanas após a cidadã americana Renee Nicole Good, também de 37 anos, ter sido baleada e morta por um agente do Serviço de Imigração e Controle de Alfândega (ICE) durante uma operação contra imigrantes em situação irregular. Desde então, Minneapolis vive uma escalada de manifestações contra a presença maciça de agentes federais na cidade.

Assim como no caso Good, as versões apresentadas pelas autoridades federais e locais sobre a morte de Pretti divergem.

O Departamento de Segurança Interna (DHS) afirmou que os agentes agiram em legítima defesa durante uma “operação seletiva” para capturar “um estrangeiro em situação irregular procurado por agressão violenta”. Segundo o órgão, o homem teria se aproximado de agentes da Patrulha de Fronteira portando uma pistola semiautomática de 9 mm e resistido violentamente à tentativa de desarme.

"Temendo por sua vida e pela vida e segurança de seus colegas, um agente efetuou disparos defensivos. Os paramédicos presentes prestaram atendimento imediato ao indivíduo, mas ele foi declarado morto no local", informou o DHS.

Os oficiais não especificaram se Pretti levantou a arma, e ela não é visível no vídeo do tiroteio feito por testemunhas obtido pela Associated Press.

No entanto, o jornal americano The New York Times analisou que o conteúdo mostra a vítima segurando um telefone celular — e não uma arma — no momento em que foi derrubada por agentes federais, o que contradiz a versão oficial apresentada pelo governo Trump. As imagens mostram ainda diversos agentes, incluindo ao menos um com colete identificado como “POLÍCIA”, cercando a vítima no chão e desferindo golpes antes dos disparos.

Outro vídeo, não verificado pela AFP, registra o momento em que Pretti aparentemente tenta proteger uma mulher de ser atingida por spray de pimenta, antes de ser imobilizado.

Quem era Alex Pretti

Alex Jeffrey Pretti era cidadão americano, nascido em Illinois, e trabalhava como enfermeiro em unidades de terapia intensiva no hospital do Departamento de Veteranos de Minneapolis. Segundo familiares, ele “se importava profundamente com as pessoas” e estava profundamente chateado com a repressão à imigração conduzida pelo governo.

“Ele achava terrível sequestrar crianças, apenas pegar pessoas na rua. Ele se importava com essas pessoas e sabia que era errado”, afirmou o pai, Michael Pretti. De acordo com a família, o enfermeiro havia participado de protestos após a morte de Renee Good, em 7 de janeiro.

Pretti não tinha antecedentes criminais, segundo registros judiciais, e nunca havia tido interações com a polícia além de multas de trânsito. Familiares confirmaram que ele possuía uma pistola e tinha permissão legal para porte oculto em Minnesota, mas afirmaram que nunca o viram carregar a arma.

Em uma conversa recente com o filho, seus pais, que moram no Colorado, disseram a ele para ter cuidado ao protestar.

"Tivemos essa discussão com ele há duas semanas ou mais, sabe, que vá em frente e proteste, mas não se envolva, basicamente não faça nada estúpido", disse Michael Pretti. "E ele disse que sabia disso. Ele sabia."

A família tomou conhecimento da morte quando foi contatada por um repórter da Associated Press. Ao tentar obter informações junto às autoridades, relatou dificuldades de comunicação. O Instituto Médico Legal do Condado de Hennepin confirmou posteriormente que havia um corpo correspondente ao nome e à descrição de Pretti.

Criado em Green Bay, Wisconsin, Alex foi atleta no ensino médio, escoteiro e integrou o Coral de Meninos da cidade. Graduou-se em biologia, sociedade e meio ambiente pela Universidade de Minnesota, em 2011, trabalhou como cientista de pesquisa e, mais tarde, retornou aos estudos para se tornar enfermeiro.

Apaixonado por atividades ao ar livre, era ciclista competitivo, amante da natureza e profundamente ligado ao seu cachorro Joule, que havia morrido recentemente. Morava sozinho em um pequeno condomínio a cerca de três quilômetros do local do tiroteio e era descrito por vizinhos como uma pessoa tranquila e solidária.

A ex-esposa, Rachel N. Canoun, afirmou que Pretti participou de protestos após o assassinato de George Floyd, em 2020, e o descreveu como alguém que sentia fortemente a injustiça social, embora não fosse fisicamente confrontador.

A mãe do enfermeiro disse que seu filho se importava imensamente com a direção que o país estava tomando, especialmente com o retrocesso das regulamentações ambientais pela administração Trump.

"Ele odiava isso, sabe, as pessoas estavam apenas destruindo a terra", disse Susan Pretti. "Ele era um amante da natureza. Levava seu cachorro para todos os lugares que ia. Sabe, ele amava este país, mas odiava o que as pessoas estavam fazendo com ele."

Trump defende ação dos agentes da ICE

Em uma publicação na rede Truth Social, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, defendeu a atuação dos agentes da ICE.

"DEIXEM NOSSOS PATRIOTAS DO ICE FAZEREM SEU TRABALHO! 12.000 criminosos estrangeiros ilegais, muitos deles violentos, foram presos e retirados de Minnesota", escreveu Trump.

O governador de Minnesota, Tim Walz, condenou o que chamou de "mais um ataque a tiros horrível".

Milhares de agentes do ICE estão mobilizados na cidade, governada pelos democratas. Neste sábado, assim como ocorreu após a morte de Good, as autoridades federais e locais ofereceram avaliações diferentes sobre o assassinato.

Investigação

Walz exigiu que as autoridades estaduais conduzissem a investigação. "Não se pode confiar no governo federal para liderar esta investigação. O Estado vai assumir, ponto final", declarou em coletiva de imprensa.

Mais cedo, o prefeito de Minneapolis, Jacob Frey, instou Trump a pôr fim à operação federal anti-imigração.

"Este é o momento de agir como um líder. Coloque Minneapolis, coloque os Estados Unidos em primeiro lugar neste momento; vamos alcançar a paz. Vamos encerrar esta operação", destacou.

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O presidente americano reagiu em sua plataforma Truth Social, acusando o prefeito de Minneapolis e o governador de Minnesota de "incitar a insurreição".

"O prefeito e o governador estão incitando a insurreição com sua retórica pomposa, perigosa e arrogante", escreveu Trump, intensificando seu confronto com os dois governantes democratas.

O chefe de polícia, Brian O'Hara, disse que a situação após os disparos era "incrivelmente volátil" e pediu que os moradores evitassem a área.

*Com informações da AFP.