O rei Charles III fará um discurso histórico no Parlamento do Canadá nesta terça-feira (27) para inaugurar a legislatura, o ponto alto de sua visita ao país do qual é chefe de Estado e que vive uma crise sem precedentes devido às ameaças do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O primeiro-ministro canadense Mark Carney está tentando usar a viagem, a primeira desde que Charles III ascendeu ao trono, para destacar a soberania do país, que faz parte da Commonwealth britânica. Carney descreveu a visita do monarca como 'uma honra histórica, compatível com os desafios do nosso tempo'.
O soberano de 76 anos, que trata um câncer há mais de um ano, foi especialmente convidado pelo primeiro-ministro para a abertura da legislatura em Ottawa, a capital. O monarca, obrigado a manter uma estrita neutralidade política, nunca comentou publicamente as declarações de Trump, que insiste que o Canadá se junte aos Estados Unidos como o '51º estado'. Por isso, há expectativa de que seu discurso faça alguma referência ao assunto. Além de sua retórica expansionista, Trump iniciou uma guerra comercial que afeta aliados e países rivais, e atingiu o Canadá de forma particularmente dura.
O discurso do trono, redigido pelo gabinete liderado pelo primeiro-ministro, geralmente é lido pelo governador-geral, que representa a monarquia britânica no Canadá. O Partido Liberal do Canadá, liderado por Carney, um tecnocrata sem experiência política anterior, venceu a eleição de 28 de abril após uma campanha focada exclusivamente em quem seria o melhor para enfrentar Trump. Carney prometeu conduzir a maior transformação da economia canadense desde o fim da Segunda Guerra Mundial. O discurso do trono é caracterizado por uma linguagem diplomática muito prudente, embora alguma alusão à soberania do Canadá seja esperada.
O Canadá não está sozinho
"Em termos simbólicos, é extraordinário porque é apenas a terceira vez que o soberano lê este discurso', observou Félix Mathieu, professor de política na Universidade de Quebec em Outaouais. Elizabeth II, a falecida mãe do rei Charles III, só fez o discurso do trono duas vezes durante seu longo reinado: em 1957 e 1977. 'Tudo o que estiver em torno do discurso do trono será interessante', acrescentou Mathieu, referindo-se a qualquer mensagem dirigida a Trump que tente transmitir que 'o Canadá não está sozinho nesta luta'. Milhares de pessoas foram às ruas da capital canadense na segunda-feira para cumprimentar o monarca, que viajou com sua esposa Camilla.
Para Shrikant Mogulala, de 32 anos, o rei está no país 'para enviar uma mensagem clara a Trump' de que o país não está à venda. O casal real visitou um mercado de produtores rurais na segunda-feira, assistiu a uma apresentação de dança indígena e foi homenageado com honras militares. Mais tarde, o rei participou de audiências privadas com Carney e líderes indígenas.