Após o sério revés sofrido pelos republicanos nas eleições de meio de mandato desta terça-feira, o partido de Donald Trump analisa as razões da derrota, e alguns integrantes apontam diretamente o presidente como alvo de suas críticas. "Trump estava nas urnas esta noite", reagiu rapidamente o deputado republicano Don Bacon. "O presidente tinha um índice de aprovação de 35%, e os eleitores não gostaram dos preços dos combustíveis, do caos, das tarifas, da maneira como os aliados foram maltratados e dos abraços com Putin", afirmou o parlamentar, crítico habitual de Trump.
Para o representante de Nebraska (centro), que não concorreu à reeleição na terça-feira, "ninguém na Casa Branca está disposto a dizer a verdade ao presidente". Se as eleições de meio de mandato são tradicionalmente consideradas um referendo sobre o ocupante da Casa Branca, os resultados de terça-feira foram especialmente severos.
Da Geórgia ao Texas, passando por Kansas, Iowa e também Carolina do Sul, os candidatos democratas venceram em estados nos quais Trump havia conquistado vitórias expressivas nas eleições presidenciais de 2024.
O vice-presidente JD Vance apresentou ele próprio um diagnóstico direto: "A guerra é a razão da nossa derrota". Uma razão "óbvia para praticamente todo mundo", avaliou em uma longa publicação na rede social X, nesta quarta-feira. Trump afirmou posteriormente que o que disse seu vice-presidente é "em grande parte verdade".
One of the things the data analysts on our side obsessed over was "composition"—whether the electorate looked close enough to 2024 for Republicans to win. And despite polls that showed a Democrat blowout, the data kept on telling us the same story: in some states turnout was…
— JD Vance (@JDVance) November 4, 2026
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Valores "abandonados"
O conflito contra o Irã, desencadeado em fevereiro pelos Estados Unidos e por Israel, foi amplamente rejeitado pelos americanos nas pesquisas de opinião. E suas consequências, especialmente sobre os preços dos combustíveis, apenas agravaram a crise do custo de vida nos Estados Unidos.
"Depois da era Biden, os americanos queriam uma economia que funcionasse para eles", destacou o senador republicano John Curtis. "Em vez disso, receberam uma guerra conduzida às pressas, manchetes e mais manchetes de escândalos, uma dívida que cresce até chegar a US$ 40 trilhões e tarifas imprevisíveis", acrescentou o representante de Utah, que defendeu "um retorno aos valores conservadores tradicionais", valores "abandonados ao longo da última década".
A Casa Branca, por sua vez, preferiu atribuir parte da responsabilidade à qualidade dos candidatos apresentados aos eleitores. "A qualidade dos candidatos importa, e o presidente Trump fez um trabalho melhor promovendo os candidatos na votação do que os próprios candidatos", afirmou à AFP um integrante do governo, sob condição de anonimato. Por trás da contundente derrota, os números também apontam para um colapso do apoio de parte do eleitorado que havia reconduzido Donald Trump ao poder em 2024.
Mudança de posição dos jovens e latinos
"Vimos muitos eleitores jovens, especialmente homens jovens, deixarem o Partido Republicano e votarem no Partido Democrata", destaca Todd Belt, cientista político da Universidade George Washington. Uma mudança de mais de 30 pontos percentuais em relação a 2024, segundo estimativas do jornal The New York Times. O voto hispânico, que havia alcançado seu maior patamar de apoio a um republicano dois anos atrás, também passou por uma mudança significativa de cerca de 30 pontos percentuais, destaca o jornal nova-iorquino.
"Por sua vez, os eleitores latinos deram uma resposta clara e contundente", avaliou Vanessa Cárdenas, diretora-executiva da organização pró-imigrantes America"s Voice, que comemorou uma participação "recorde". "Durante dois anos, eles tiveram um alvo nas costas, independentemente de sua situação de cidadania, simplesmente por causa de sua aparência ou do idioma que falam", acrescentou a dirigente, referindo-se aos excessos da polícia de imigração (ICE) desde o retorno de Donald Trump ao poder.
Agora que o diagnóstico da derrota republicana está estabelecido, começa o trabalho difícil para os democratas, observa Todd Belt. Enquanto os eleitores votaram "contra Donald Trump, contra os preços altos, contra a guerra no Irã e contra os erros cometidos por este governo", os democratas "precisam agora dar a eles um motivo para votar "a favor", e não apenas "contra"", ressalta o cientista político.