capa

Retorno à calma em Gaza após escalada de violência com Israel

Medida entrou em vigor antes do amanhecer, neste início do Ramadã

Por
AFP

Prédio destruído por ataque israelense

publicidade

A calma retornava nesta segunda-feira (6) na Faixa de Gaza após um cessar-fogo anunciado pelos palestinos depois da pior escalada de violência com Israel em anos, mas sem nenhuma solução de longo prazo ao conflito. A medida entrou em vigor antes do amanhecer, neste início do Ramadã, informaram três autoridades palestinas e egípcia, sob condição de anonimato. Sem confirmar a trégua, como é comum do lado israelense, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu fez uma breve declaração garantindo que "a campanha não terminou e requer paciência, frieza e reflexão".

O Hamas e a Jihad Islâmica, principais forças palestinas na Faixa de Gaza, foram atingidos "com grande força" e Israel está "pronta para continuar", afirmou Netanyahu. Após dois dias de uma escalada que matou 25 civis e combatentes na Faixa de Gaza e quatro civis em Israel, os disparos de foguete a partir do enclave palestino e as represálias israelenses pararam, efetivamente, na hora do cessar-fogo, constatou um jornalista da AFP em Gaza.

Em um sinal de apaziguamento, o Exército israelense anunciou o levantamento de todas as restrições impostas às populações civis israelenses vizinhas de Gaza. O Egito, tradicional mediador do conflito, preparou um acordo para cessar as hostilidades a partir das 4h30min (22h30min de domingo no horário de Brasília), segundo informou um membro do movimento islamita Hamas no poder em Gaza e um outro responsável da Jihad Islâmica, segunda força no enclave. Uma autoridade egípcia confirmou a conclusão de um acordo.

O enclave palestino e as cidades israelenses vizinhas foram palcos nos últimos dois dias da mais severa escalada de violência desde a guerra de Gaza de 2014. O acordo alcançado durante a noite, como os precedentes concluídos após episódios de violência, visa uma flexibilização no bloqueio imposto por Israel à Gaza, segundo o membro da Jihad Islâmica. Ele prevê medidas que incluem a extensão das zonas de pesca para os palestinos no Mediterrâneo, bem como melhorias no fornecimento de eletricidade e combustível, preocupações primordiais no eclave onde vivem dois milhões de habitantes.

Cerca de 690 foguetes foram disparados desde sábado a partir de Gaza. Destes, mais de 500 atingiram o território israelense, incluindo 35 em áreas urbanas, segundo o Exército israelense. Nos ataques israelenses, em resposta aos disparos de foguetes, 19 palestinos morreram no domingo, entre eles uma mulher grávida e dois bebês, segundo o ministério da Saúde palestino. Também morreram seis militantes do Hamas, movimento islamita palestino que controla a Faixa de Gaza. Já a Polícia e os meios de comunicação do Estado hebraico reportaram quatro mortos em seu território por causa dos bombardeios palestinos.

Os alvos dos ataques de represália de Israel incluíram o quartel-general das forças de segurança do enclave palestino, indicou um comunicado do ministério do Interior de Israel. O edifício, que fica na Cidade de Gaza, foi destruído, acrescentou o texto. Um combatente palestino, apresentado pelo Hamas como um de seus combatentes e considerado por Israel como um intermediário financeiro do dinheiro iraniano, também morreu em um ataque israelense.

Os palestinos dispararam os projéteis contra localidades do sul e do centro de Israel. Dezenas foram interceptados pela defesa antimísseis, afirmaram as Forças Armadas israelenses, e grande parte caiu em áreas desabitadas, destacou a Polícia. O Exército israelense disse que seus tanques e aviões atingiram em seu entorno 220 alvos militares em Gaza. A Turquia, por sua vez, criticou uma "agressividade sem limites", após o ataque israelense contra um edifício de vários andares em Gaza que, segundo Ancara, abriga o escritório da agência de notícias turca Anadolu. Segundo a Anadolu, o pessoal da agência evacuou o edifício pouco antes do ataque, antecedido de um alerta. Neste contexto, Israel anunciou o fechamento de passagens fronteiriças de Gaza e a proibição da pesca no litoral do enclave.

O presidente americano Donald Trump assegurou no domingo que Israel tem todo o apoio de Washington após a retaliação aos disparos feitos de Gaza. "Mais uma vez, Israel enfrenta uma série de ataques mortais com foguetes de grupos terroristas Hamas e Jihad Islâmica. Apoiamos Israel 100% na defesa de seus cidadãos", tuitou Trump. Israel e Hamas se enfrentaram em três guerras desde 2008.

No fim de março, sob os auspícios de Egito e ONU, negociou-se um cessar-fogo, anunciado pelo Hamas, mas nunca confirmado por Israel. Isto permitiu manter uma relativa tranquilidade durante as eleições legislativas israelenses de 9 de abril. Mas a situação se degradou esta semana. Voltaram os disparos de foguetes e balões incendiários palestinos, assim como as represálias israelenses. Três fatores poderiam pressionar Israel a acalmar a situação: as negociações em curso para formar uma coalizão governamental depois da vitória de Netanyahu nas eleições, o concurso musical Eurovision previsto para ser realizado em Tel Aviv em meados de maio, e as comemorações pela criação do Estado de Israel, na quinta-feira.

Desde março de 2018, os palestinos se manifestam na fronteira entre a Faixa de Gaza e Israel contra o bloqueio ao enclave e pelo retorno dos refugiados que foram expulsos ou tiveram que abandonar suas terras após a criação de Israel em 1948. Ao menos 276 palestinos morreram desde o início da mobilização, nas manifestações ou nos ataques israelenses como represália. Dois soldados e um civil israelense morreram neste período, devido a estes confrontos entre Gaza e Israel.