Rohingyas continuam a fugir de Mianmar, apesar de acordo

Rohingyas continuam a fugir de Mianmar, apesar de acordo

Dois países vizinhos acordaram para o possível retorno à Mianmar dos refugiados

AFP

Dois países vizinhos acordaram para o possível retorno à Mianmar dos refugiados

publicidade

Os rohingyas de Mianmar continuam a chegar em Bangladesh, apesar do acordo para o regresso dos refugiados assinado por ambos os países na semana passada, disseram autoridades locais nesta segunda-feira. Os dois países vizinhos acordaram na quinta-feira os critérios para o possível retorno à Mianmar dos refugiados que chegaram a Bangladesh desde outubro de 2016, ou seja, cerca de 700.000 rohingyas.

Este texto provocou ceticismo entre organizações humanitárias e a comunidade rohingya. Desde o seu anúncio, pelo menos 3.000 ronhingyas chegaram a Bangladesh, informaram as Nações Unidas em seu último relatório sobre esta crise
humanitária, uma das mais graves neste século XXI. "O número de chegadas reduziu, mas não parou", declarou à AFP o tenente-coronel S.M. Ariful Islam. De acordo com o Islam, seus homens viram pelo menos 400 refugiados entrarem desde a assinatura do acordo.

Visita do Papa gera polêmica

O papa Francisco desembarcou nesta segunda-feira em Mianmar para uma visita muito delicada ao país de maioria budista, que recentemente foi acusado de "limpeza étnica" contra a minoria muçulmana rohingya. "Enquanto me preparo para visitar Mianmar e Bangladesh, desejo enviar algumas palavras de saudação e amizade a suas populações. Tenho muita vontade de encontrá-los!", escreveu no Twitter.

Em sua 21º viagem, o pontífice também visitará Bangladesh, outro país com grandes tensões religiosas para o qual muitos rohingyas emigraram, em fuga da violência. Quase 620 mil rohingyas fugiram desde o fim de agosto do estado de Rakhine (oeste de Mianmar), onde o exército executou uma dura campanha de repressão que a ONU chamou de "limpeza étnica".

O avião do papa Francisco, de 80 anos, pousou no início da tarde em Yangun, capital econômica de Mianmar. As palavras do pontífice sobre os rohingyas serão cuidadosamente analisadas em um país que registra uma forte tensão religiosa. Francisco não hesitou em denunciar nos últimos meses o tratamento recebido por aqueles que chama de "irmãos rohingyas", sob risco de irritar a maioria budista do país. Durante a visita, Francisco se reunirá com o comandante do exército, Min Aung Hlaing, apontado por organizações de defesa dos direitos humanos como o principal culpado pela campanha de repressão.

Na semana passada, Mianmar e Bangladesh anunciaram um acordo para o retorno dos refugiados rohingyas, mas o comandante do exército se declarou contrário a um retorno em massa. O papa também se reunirá com a dirigente birmanesa e prêmio Nobel da Paz Aung San Suu Kyi, cuja reputação internacional foi abalada por sua falta de empatia a
respeito dos rohingyas. A opinião pública birmanesa, com um forte sentimento nacionalista budista e amplamente contrária aos muçulmanos, está indignada com os questionamentos da comunidade internacional sobre a maneira como o governo administra o conflito. "A grande maioria das pessoas em Mianmar não acredita no discurso internacional dos abusos contra os rohingyas, nem no êxodo de um grande número de refugiados a Bangladesh", explicou Richard Horsey, analista independente que mora em Mianmar. "Se o papa vier e tratar o assunto de forma insistente, vai aumentar as tensões", completou.

A dúvida é saber se, neste contexto, ele evitará pronunciar o termo "rohingya", tabu em Mianmar, como recomenda a Igreja local, temerosa de que isto possa despertar a ira dos extremistas budistas. Antes da explosão de violência em agosto, quase um milhão de muçulmanos rohingyas viviam em Mianmar, muitos deles há várias gerações. Mas desde uma lei aprovada em 1982, esta minoria não possui a nacionalidade birmanesa e constitui a maior população apátrida do mundo.

publicidade

Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895