O presidente russo, Vladimir Putin, afirmou nesta terça-feira (2) que não deseja uma guerra com a Europa, mas que, se os europeus iniciarem um conflito, seu país está preparado. A declaração para a imprensa foi feita antes de uma reunião crucial com enviados americanos em Moscou.
"Não temos intenção de ir à guerra com a Europa, mas, se a Europa quiser e começar, estamos prontos", declarou Putin, que acusou os europeus de quererem impedir os esforços dos Estados Unidos para pôr fim à guerra na Ucrânia.
"Os europeus estão incomodados por terem sido excluídos das negociações, mas (...) eles próprios se afastaram, foi uma iniciativa deles", continuou o presidente russo. "Eles não têm um programa de paz, estão do lado da guerra", acrescentou, à margem de um fórum econômico.
Putin aconselhou os líderes europeus a abandonarem a "ilusão" de que podem infligir uma "derrota estratégica à Rússia" e voltarem "à realidade, com base na situação no terreno".
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Nesta terça, Putin recebe o enviado americano, Steve Witkoff, e o genro de Donald Trump, Jared Kushner, no Kremlin para discutir o fim da guerra na Ucrânia.
Na segunda-feira, Washington declarou estar "muito otimista" sobre as possibilidades de alcançar um acordo para colocar fim à quase quatro anos de conflito entre Rússia e Ucrânia.
O presidente americano e sua equipe "trabalharam muito arduamente neste assunto e desejam sinceramente que esta guerra termine", afirmou a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt.
Por sua vez, o presidente da Ucrânia, Volodimir Zelensky, busca o apoio de seus aliados europeus, que temem que o plano de Trump, elaborado sem a participação de Kiev ou da Europa, pareça uma simples lista de desejos de Moscou.
Após receber um firme apoio de seu homólogo francês, Emmanuel Macron, em Paris, o mandatário ucraniano chegou na noite de segunda-feira à Irlanda, onde o primeiro-ministro Micheal Martin reafirmou seu "apoio inabalável", em uma mensagem publicada no X.
Politicamente enfraquecido por um escândalo de corrupção que envolve seu governo, Zelensky está sob pressão de Washington para alcançar uma solução para o conflito.
"Temas-chave"
Os Estados Unidos apresentaram há dez dias um projeto em 28 pontos, redigido sem os aliados europeus de Kiev e que posteriormente foi modificado após reuniões com europeus e ucranianos em Genebra. Desde então, os contatos diplomáticos têm se intensificado para finalizá-lo.
O negociador ucraniano, Rustem Umerov, reuniu-se no domingo na Flórida com Witkoff e, embora tenham ocorrido "avanços significativos", alguns temas ainda exigem "ajustes", explicou Umerov na segunda-feira.
Ambos conversaram na segunda-feira com Zelensky e Macron, segundo a presidência francesa.
"Esperamos uma conversa com o presidente dos Estados Unidos sobre temas-chave que são bastante complexos", declarou o mandatário ucraniano em Paris.
Os europeus confiam que a administração Trump, acusada de ser complacente com Putin, não sacrifique a Ucrânia.
Segundo uma conversa telefônica revelada no final de novembro pela Bloomberg, Steve Witkoff deu conselhos a um assessor de Putin sobre como o mandatário russo deveria dialogar com o presidente americano sobre o conflito na Ucrânia.
Pressão sobre o "mais fraco"
As forças russas alcançaram em novembro seu maior avanço na frente ucraniana em um ano, segundo análise feita pela AFP com base em dados do Instituto Americano para o Estudo da Guerra (ISW).
Em um mês, a Rússia ocupou 701 km² de território ucraniano, o segundo maior avanço depois do registrado em novembro de 2024 (725 km²), excluindo os primeiros meses da guerra em 2022.
Na segunda-feira, Moscou reivindicou a tomada da cidade de Pokrovsk (leste), um centro logístico essencial para Kiev, assim como a de Vovchansk (nordeste). No entanto, a Ucrânia afirmou nesta terça-feira que os combates em Pokrovsk continuam.
Em novembro, a Rússia lançou mais mísseis e drones em seus ataques noturnos contra a Ucrânia do que no mês anterior, com um total de 5.660 mísseis e drones de longo alcance (+2%).
No plano interno, o presidente ucraniano foi enfraquecido por um amplo escândalo de corrupção que levou à renúncia de seu então chefe de gabinete, Andrii Yermak, na sexta-feira.
A semana será "crucial" para a Ucrânia, afirmou a chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, que expressou o temor de que "toda a pressão seja exercida sobre o lado mais fraco, já que a rendição da Ucrânia é a maneira mais fácil de pôr fim a esta guerra".