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Trump faz discurso moderado, mas mantém promessa de maior rigor com imigração

Presidente americano foi menos sombrio em sua primeira fala no Congresso

Trump apresentou plano geral do governo no Congresso na terça-feira
Trump apresentou plano geral do governo no Congresso na terça-feira Foto : Jim Lo Scalzo / POOL / AFP / CP
Donald Trump suavizou sua retórica no primeiro discurso no Congresso, mas sem reduzir o desejo de aplicar com firmeza as leis migratórias e reduzir o fluxo de entrada de pessoas com baixa capacitação de trabalho e poucos recursos. Em um discurso menos sombrio que o de sua posse há pouco mais de um mês e um tom mais solene que o habitual, o 45º presidente americano ofereceu na terça-feira a explicação mais ponderada e detalhada até agora de sua política: "Estados Unidos em primeiro lugar".

O presidente citou motivos econômicos como justificativa da linha dura contra a imigração ilegal, o que gerou aplausos dos republicanos, que são maioria no Congresso. "Ao fazer com que finalmente sejam aplicadas nossas leis migratórias vamos elevar salários, ajudar os desempregados, economizar bilhões de dólares e tornar nossas comunidades mais seguras para todos", disse.

Uma semana depois de conceder amplas prerrogativas de deportação às agências migratórias, Trump insistiu na construção do polêmico muro na fronteira com o México. "Em breve, começaremos a construção de um grande, grande muro ao longo da nossa fronteira sul. Começará antes do previsto. Quando estiver concluído, será uma arma muito efetiva contra as drogas e contra o crime", garantiu.

Em apoio a seu programa, o presidente americano convidou duas viúvas de policiais mortos em 2014 por um imigrante clandestino. Mas, com uma postura mais construtiva, propôs um sistema baseado no mérito e disse que acredita em um acordo entre democratas e republicanos sobre a reforma migratória.

"Se passarmos do atual sistema de imigração de pessoas com baixa capacitação e adotarmos um sistema baseado no mérito, teremos muitos benefícios: pouparemos dólares, elevaremos os salários e ajudaremos as famílias em dificuldades - incluindo famílias de imigrantes - a ingressar na classe média", disse. "É um princípio básico que aqueles que buscam entrar em um país devem ser capazes de manter a si mesmos financeiramente", destacou.

Poucas horas antes do discurso, em um encontro com jornalistas na Casa Branca, Trump havia surpreendido, porém, ao evocar a possibilidade de apoiar uma reforma de regularização de imigrantes sem documentos nos Estados Unidos, desde que não tenham antecedentes penais.

"Novo orgulho nacional"

Diante de um nível de popularidade baixo e de um início conturbado de presidência, Trump falou por uma hora em um Congresso lotado de membros de seu gabinete, senadores, representantes, magistrados, embaixadores e generais. "Um novo orgulho nacional está varrendo o país. E uma nova onda de otimismo está colocando sonhos impossíveis firmemente a nosso alcance", afirmou. "Somos testemunhas de uma renovação do espírito americano", completou.

Em uma fala ao exterior, suavizou as críticas aos países da Otan e prometeu trabalhar com aliados no mundo muçulmano para derrotar o grupo extremista Estado Islâmico. Mas não pediu desculpas por centrar sua visão nos Estados Unidos. "Meu trabalho não é representar o mundo, e sim representar os Estados Unidos", disse.

"Dreamer" responde

De terno escuro e gravata azul listrada - abandonando seu característico vermelho e o explosivo e improvisado estilo discursivo -, o presidente se manteve, de modo geral, alinhado com o texto divulgado antecipadamente para a imprensa pela Casa Branca. Algumas congressistas democratas se vestiram de branco para a ocasião, um símbolo da luta pelos direitos das mulheres e que demonstra a forte oposição às políticas de Trump.

"Foi divisivo e tem como objetivo causar medo e terror em comunidades no país", disse Astrid Silva, uma ativista sem documentos, escolhida para pronunciar a resposta em espanhol do Partido Democrata. "Deveria reconhecer as contribuições dos imigrantes, das quais ele mesmo se beneficiou", completou Silva, uma "dreamer", beneficiária do programa DACA, que a protege da deportação, e que Trump prometeu suprimir.

Ao mesmo tempo, o presidente republicano defendeu políticas populares entre as famílias como a licença paternidade remunerada, e inclusive chegou a ganhar elogios de alguns democratas por sua tentativa de apresentar um cenário mais otimista e pedir a unidade nacional.

Elogio republicano

"Foi muito menos obscuro que o discurso de posse. E fez uma tentativa de aproximação. Mas o diabo mora nos detalhes", disse o congressista democrata John Larson. De acordo com uma pesquisa da CNN, 57% dos americanos que assistiram o discurso reagiram de forma positiva.

Na agenda doméstica, o bilionário prometeu uma reforma fiscal "histórica" - com menos impostos para a classe média - e acabar com o sistema de saúde de seu antecessor, o Obamacare, um agrado para os republicanos ainda céticos. "Foi um home-run. O presidente Trump deu uma mensagem corajosa e otimista aos americanos", elogiou o presidente da Câmara de Representantes, Paul Ryan, ao utilizar um termo do beisebol.

Trump prometeu "reiniciar o motor da economia americana" e tornar mais difícil para as empresas deixarem o país. Ele se comprometeu a atrair um trilhão de dólares em projetos de infraestrutura. A tensão entre os Legislativo e o Executivo é forte, no entanto, pela proposta de Trump de aumentar os gastos militares em 10% (quase 54 bilhões de dólares).

Mas o presidente não apresentou detalhes para estes planos, que sem dúvida afetarão a já elevada dívida nacional. "As contas não fecham", disse o senador democrata Chris Van Hollen.