O maior estudo sobre a sequência genética SARS-CoV-2 – o vírus causador da Covid-19 – aponta que existem em circulação pelo menos seis subtipos, chamados de cepas, deste coronavírus. As conclusões do trabalho feito por cientistas da Universidade de Bolonha, na Itália, foram publicadas recentemente no periódico Frontiers in Microbiology. A constatação deles é que as mutações do vírus desde o primeiro registro em humanos — no fim de 2019, em Wuhan, na China — são favoráveis para o desenvolvimento de vacinas e medicamentos.
Após analisar 48.635 genomas completos do SARS-CoV-2, o grupo identificou, em média, 7 mutações. O vírus influenza, por exemplo, tem mais do que o dobro disso. "Nossa análise mostra a prevalência de transições de nucleotídeo único como o principal tipo de mutação em todo o mundo. Existem pelo menos três clados caracterizados por especificidade geográfica e genômica. Nossa análise pode facilitar estratégias antivirais projetadas com base nas especificidades moleculares do SARS-CoV-2 em diferentes pacientes e localizações geográficas", assinam os cientistas Daniele Mercatelli e Federico M. Giorgi*
A primeira cepa identificada do SARS-CoV-2 foi a L, oriunda de Wuhan. Ela ainda é responsável por 7% dos genomas sequenciados. No início de 2020, houve a primeira mutação, para a cepa S, junto a outras sequências menos definidas (O). As duas continuaram em circulação. Posteriormente, surgiram as cepas V e G, sendo que esta última se transformou em duas linhagens: GR e GH.
A cepa G e as linhagens GR e GH são as mais difundidas no mundo, segundo o estudo, representando 74% de todas as sequências genéticas analisadas. "Elas [cepas G, GR e GH] apresentam quatro mutações, duas das quais são capazes de alterar a sequência das RNA polimerase e proteínas spike do vírus. Essa característica provavelmente facilita a disseminação do vírus", explica Federico Giorgi, coordenador do estudo.
A proteína spike é a parte da coroa do vírus por onde ele se acopla a receptores localizados nos pulmões humanos, chamados ACE2. No Brasil, a cepa GR representa em torno de 75% dos coronavírus já sequenciados, conforme o banco de dados de genomas Gisaid, utilizado pelos pesquisadores.
"Atualmente, o genoma amplamente prevalente na América do Norte é o GH, representando mais de 50% das sequências enviadas. Na Europa e América do Sul, os clades mais frequentes são GR, enquanto na Oceania parece haver a coexistência mais equilibrada de todas. A África mostra uma prevalência do G. É interessante notar que a Ásia, inicialmente caracterizada por sequências de referência, está atualmente observando um aumento nos genomas de G, GH e GR, que ganharam terreno no continente no início de março de 2020, mais de um mês após o surgimento desses clades na Europa", observam os pesquisadores.
Os cientistas italianos ressaltam que, além das principais seis cepas do SARS-CoV-2, algumas mutações pouco frequentes foram identificadas, mas que não são preocupantes, embora devam ser monitoradas. "Mutações genômicas raras são menos de 1% de todos os genomas sequenciados. No entanto, é fundamental estudá-los e analisá-los para que possamos identificar suas funções e monitorar sua disseminação. Todos os países devem contribuir para a causa, dando acesso a dados sobre as sequências do genoma do vírus", acrescenta o coordenador do estudo.