Vaticano vai abrir arquivos secretos de Pio XII para esclarecer sua atuação na Segunda Guerra
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Vaticano vai abrir arquivos secretos de Pio XII para esclarecer sua atuação na Segunda Guerra

Pontífice que governou entre 1932 e 1958 é criticado por supostamente não ter levantado a voz contra o nazismo

Por
AFP e Correio do Povo

Papa Francisco ressaltou seu desejo e esperança de esclarecimento sobre o papel desempenhado pelo ex-líder da Igreja Católica durante a Segunda Guerra Mundial

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O Vaticano abrirá, em 2 de março de 2020, o arquivo secreto relativo ao pontificado de Pio XII, anunciou o Papa Francisco nesta segunda-feira durante audiência com membros do Arquivo Secreto na Sala Clementina. "Anuncio minha decisão de abrir aos pesquisadores a documentação arquivística referente ao pontificado de Pio XII, até sua morte, ocorrida em Castel Gandolfo em 9 de outubro de 1958", declarou o argentino, que também ressaltou seu desejo e esperança de esclarecimento sobre o papel desempenhado pelo ex-líder da Igreja Católica durante a Segunda Guerra Mundial, uma vez que entidades afirmam que ele não levantou a voz contra o nazismo.

No passado, diferentes associações e o Comitê Judaico Internacional para as Consultas Inter-religiosas haviam solicitado a documentação dos arquivos do Vaticano especialmente após o início do processo de beatificação de Pio XII, relançado em 2009 por Bento XVI. Para alguns historiadores, ele deveria ter condenado o massacre de judeus com muito mais firmeza, mas não o fez por causa da cautela diplomática e para não colocar em perigo os católicos na Europa ocupada. Muitos o acusaram de não protestar contra os crimes do nazismo, quando a poucos metros do Vaticano, em 1943, 1.022 pessoas foram deportadas para Auschwitz e apenas 16 retornaram. Outros pesquisadores, no entanto, afirmam que ele salvou dezenas de milhares de judeus italianos pedindo aos conventos que lhes abrissem suas portas.

Francisco sublinhou que "a Igreja não tem medo da história, ao contrário, ama e gostaria de amá-la mais e melhor, como Deus a ama". Estes são os famosos "arquivos" cuja consulta são solicitada pelos estudiosos do Holocausto há quase cinquenta anos, interessados ​​na documentação completa das palavras e ações do Papa em relação ao extermínio dos judeus. Vinte arquivistas especializados trabalharam durante 13 anos no arranjo da "enorme documentação". Segundo o periódico L'osservatorio Romano, o jornal do Vaticano, são 16 milhões de folhas. 

O Pontífice afirma estar "certo de que a pesquisa histórica séria e objetiva poderá avaliar adequadamente a crítica, os momentos de exaltação daquele pontífice e, sem dúvida, também os momentos de sérias dificuldades, de decisões atormentadas, de prudência humana e cristã, que para alguns podiam parecer reticências e que em vez disso eram tentativas, humanamente também muito lutadas, de manter aceso, nos períodos de mais densa escuridão e crueldade, a chama de iniciativas humanitárias, da diplomacia oculta mas ativa, de esperança em possíveis boas aberturas de corações". 

Anteriormente, João Paulo II e Bento XVI, em saudação dos pedidos dos historiadores, deram ordens para a preparação da abertura ser apressada, mas  os tempos habituais do Arquivo foram respeitados. Para o atual Papa, "a figura de Piu XII, que se encontrou levando a Barca de Pedro em um momento entre os mais tristes e sombrios do século XX, inquieto e muito destruído pela última guerra, com o período subsequente reorganização das nações e reconstrução pós-guerra, já foi investigada e estudada em muitos aspectos diríamos com algum preconceito ou exagero".

"Um certo debate historiográfico, agora finalmente menos acalorado, apresentou-o como o 'Papa dos Silêncios' por sua atitude durante o Holocausto", afirma o jornalista Andrea Tornielli no L'osservatirio Romano. "Pio XII, secularmente Eugenio Pacelli, é uma figura a ser estudada e isso será facilitado pela abertuda dos arquivos do Vaticano relacionados ao seu pontificado. Papa Pacelli viu de perto as páginas escuras do século XX, foi mantido refém pelos revolucionários bolcheviques, viu nascer o nazismo. Ele foi reconhecido como o título de 'defensor civitatis', o protagonista de uma grande obra de caridade em favor de todos os perseguidos. Ele reinou nos difíceis anos do pós-guerra, apontando o caminho para reconstruir através da democracia tudo o que havia sido varrido pelo conflito".

Reações

O American Jewish Committee (AJC), um dos principais grupos judaicos do mundo, festejou o movimento. "Por mais de 30 anos, o AJC pediu a abertura completa dos Arquivos Secretos da Santa Sé do período da Segunda Guerra Mundial", disse o rabino David Rosen, diretor internacional de Assuntos Inter-religiosos do AJC.  "É particularmente importante que especialistas dos principais institutos do memorial do Holocausto em Israel e nos EUA avaliem objetivamente, da melhor forma possível, o registro histórico do mais terrível dos tempos, reconhecendo tanto os fracassos quanto os valentes esforços feitos durante o período de Shoah ", disse Rosen à Reuters em um e-mail, usando a palavra hebraica para o Holocausto.