Mundo

Venezuela denuncia "golpe no Mercosul" e se nega a aceitar suspensão

Chanceler afirmou que "lei da selva está destruindo o bloco"

Maduro denuncia "lei da selva" que está destruindo o bloco
Maduro denuncia "lei da selva" que está destruindo o bloco Foto : Juan Barreto/AFP/CP
A Venezuela denunciou como um "golpe de Estado" a decisão de seus sócios do Mercosul de suspendê-la como Estado membro nessa quinta-feira. É a mais dura sanção de uma entidade internacional em meio à crise interna. "Constituiria uma agressão de dimensões realmente muito graves à Venezuela", disse nesta sexta-feira, aborrecida, a chanceler Delcy Rodríguez em coletiva de imprensa, esclarecendo que seu país ainda não foi notificado.

Entretanto, representantes de Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai asseguraram nesta sexta-feira, em um comunicado, ter informado a Rodríguez sobre a "suspensão do exercício dos direitos inerentes à condição de Estado Parte" do bloco. Ao denunciar uma "lei da selva" que está "destruindo" o Mercosul, a ministra assinalou que Caracas "não reconhece este ato írrito" que empurra o grupo à ilegalidade.

Rodríguez advertiu também que a rica nação petroleira - afundada em uma grave crise política e econômica - "seguirá exercendo a presidência legítima (do Mercosul) e participará com direito a voz e voto em todas as reuniões como Estado Parte". A suspensão ocorreu após a conclusão na quinta-feira do prazo de três meses que os fundadores do grupo deram ao governo de Nicolás Maduro para que incorporasse a sua legislação uma série de disposições comerciais e políticas, incluindo uma relacionada aos direitos humanos.

A sanção estará em vigor até que seja combinada com a Venezuela "as condições para restabelecer o exercício de seus direitos como Estado Parte", acrescentaram os chanceleres. A Venezuela – que entrou no bloco em 2012 – sustenta que alguns dos compromissos de adesão se chocam com suas normas internas, embora na terça-feira tenha dito estar disposta a assinar um dos convênios comerciais pendentes, relacionado às tarifas comuns e à livre circulação de bens.

A suspensão vinha sendo desenhada desde que os outros estados membros bloquearam, em julho, o acesso do país caribenho à presidência semestral do grupo, fundado em 1991. Em setembro, decidiram ocupar a vaga de forma colegiada e lançaram o ultimato. O analista argentino Gabriel Puricelli explicou que a Venezuela foi incluída como membro pleno quando ainda não havia completado os requisitos, graças a um entorno político favorável de governos de esquerda.

Essa realidade se transformou com a chegada ao poder de presidentes liberais de centro-direita no Brasil e Argentina, com o qual, segundo Puricelli, "deixou de existir a vontade política de mantê-la" em condições especiais. A oposição venezuelana assegurou que a medida também ocorre porque Maduro "desconhece" o Parlamento - sob controle adversário - que deveria referendar os acordos de adesão.

Em meio a uma dura troca de farpas com seus sócios, a Venezuela disse que na quarta-feira ativou um mecanismo de resolução de controvérsias do bloco ante o que chamou de "agressões e perseguição". Mas Puricelli não acredita que o país possa apresentar um caso legal dentro do Mercosul porque "está em falta" pelo incumprimento de compromissos.