Menos de duas horas depois de decolar de Roma, sobrevoando o deserto do Saara, o Papa falou com a imprensa. De forma paciente, conversou com cada um, em uma das alas do avião. Mas foi com os brasileiros que ele não perdeu o humor, chegando a levantar uma bandeira do Brasil dada por um dos repórteres.
A outro jornalista, ele ainda brincou. "Os argentinos dizem que eu sou argentino. E vocês, o que é que têm?". Antes que uma resposta fosse dada, ele emendou: "vocês tem a mim, também".
Sorridente e chegando a gargalhar com as piadas, o Papa pediu desculpas por não dar entrevistas. "Eu não sei fazer isso", justificou. Mas fez questão de receber cada um dos jornalistas no voo da Alitalia.
Uma repórter do México lembrou que ele havia deixado o conforto da primeira classe para se reunir com "os leões", em referência aos jornalistas. O Papa assumiu. "Vocês não são os santos aos quais sou devoto", ironizou. "Mas esses leões não são tão ferozes", disse o argentino.
Questionado sobre quem ganharia a Copa do Mundo de 2014, apenas olhou para o céu com o ar de suspense e deixando o resultado "nas mãos de Deus". O voo que leva o Papa chegará às 16h no Rio de Janeiro. Há 105 pessoas a bordo.
Preocupação social
Ainda no voo, o Papa deixou claro sua preocupação social e, diante dos protestos no Brasil, confirmou: "sua visita vem em um momento muito oportuno". Em uma declaração, o argentino revelou sua preocupação com a exclusão social de jovens e idosos. "Essa primeira viagem é para encontrar os jovens. Mas não no isolamento e sim no contexto de sua sociedade. Quando isolamos os jovens, fazemos uma injustiça. Eles pertencem a uma família, a uma cultura, a um país, a uma fé. Não podemos isolá-los da sociedade", disse o pontífice.
"Por isso quero encontrá-los em seu tecido social", insistiu. "É verdade que a crise mundial não tem sido suave com os jovens. Li na semana passada quantos deles estão sem trabalho e acho que corremos o risco de criar uma geração que nunca trabalhou", alertou o Papa. "Trabalho dá dignidade a pessoa e a habilidade de ganhar o pão. A juventude está em crise", reforçou. "Estamos acostumados com uma cultura descartável. Fazemos isso com frequência com os idosos e, com a crise, estamos fazendo o mesmo com os jovens. Precisamos de uma cultura de inclusão", apelou o pontífice.
Para ele, o problema não é apenas o isolamento dos jovens. "É verdade que são o futuro do povo, que têm energia. Mas eles não são os únicos que representam o futuro, os idosos também. Os jovens são porque são fortes e os velhos porque têm a sabedoria", declarou o argentino. "Algumas vezes somos injustos com os velhos, como se não tivessem nada a nos dar. Mas eles têm a sabedoria de história, pátria e família que precisamos", disse. Mantendo sua simplicidade, ele pediu aos jornalistas que o ajudassem na viagem "para o bem da sociedade", e concluiu com sua declaração que já virou tradicional, "um abraço a todos".
Prefeito do Rio garante segurança
O prefeito Eduardo Paes reiterou nesta segunda-feira que "o Papa Francisco está totalmente seguro no Rio de Janeiro. Sabe que a cidade vai acolhê-lo muito bem". Paes saudou os jornalistas estrangeiros que participam da cobertura da Jornada Mundial da Juventude (JMJ), que vai de terça, 23, ao dia 28. "Manifestações são coisas normais, ninguém teme isso", comentou ao ser perguntado sobre os riscos que o papa poderia correr na visita ao Palácio Guanabara, sede do governo estadual, em frente ao qual está marcado um protesto nesta segunda.
Antes de Paes, o padre Marcio Queiroz, diretor de comunicação da JMJ, falou sobre as últimas mudanças no roteiro do papa no Rio. Ele disse que os peregrinos argentinos que quiserem estar com Francisco na quinta-feira no Terreirão do Samba precisam apenas se dirigir até lá e provar sua nacionalidade. A capacidade no local é de 15 mil pessoas.
O padre revelou também que, na quinta, o pontífice será levado de carro fechado do Palácio da Cidade, um dos locais de trabalho do prefeito Eduardo Paes, até o Centro de Triagem dos Correios, em Benfica, na zona norte. Lá, ele pegará o jipe aberto para chegar à favela de Varginha, um trajeto de 800 metros, durante o qual poderá ser visto pelos fiéis.