De acordo com testemunhas, uma das vítimas do ônibus seria um boliviano, que havia bebido em uma festa e dormia no coletivo esperando a partida - ele não teria percebido o início do fogo. O outro seria um morador de rua que atuava como zelador da praça e teria entrado no ônibus para tentar salvar o boliviano.
Estopim do incêndio, a abordagem policial ocorreu à 1h30min na rua Basílio Alves Morango. Segundo a versão dos policiais, os dois ocupantes do Passat vermelho estavam armados e tentaram fugir ao perceberem a aproximação da viatura. Foi quando houve o suposto tiroteio e Maycon Rodrigues de Moraes, o Alemão, que teria passagem por tráfico, foi morto. O outro jovem, Walterney Marques da Silva Júnior, foi baleado e levado ao hospital, onde permanece internado.
Essa versão oficial foi durante todo o dia contestada por vizinhos e familiares da vítima, que dizem que os jovens não reagiram. Um parente de Maycon disse ao Estado que a truculência policial foi tanta que o irmão dele, Marcelo, teria sido internado com traumatismo craniano. Ao saber do tiroteio, ele teria ido ao local do crime, que fica perto da casa dos dois, e sido espancado pela polícia.
Após o tiroteio, moradores ainda se reuniram em torno da viatura para protestar. Policiais teriam disparado tiros para o alto para dispersar a multidão.
Uma hora depois da morte de Maycon, um grupo jogou gasolina em um ônibus estacionado na zona norte, que pegou fogo e queimou as duas pessoas. Até as 19h deste domingo, os corpos não haviam sido identificados. A menos de dois quarteirões dali, na Praça Ana Gutemberg, também no Jaçanã, um segundo ônibus foi queimado às 11h. Ninguém ficou ferido.
O clima de tensão permaneceu o dia todo na região. No quarteirão do tiroteio, bloqueado pela polícia, moradores se juntaram para protestar novamente e bombinhas de festa junina chegaram a ser jogadas contra os policiais. Amigos se reuniram com camisas com os dizeres "saudades eternas" e a foto de Maycon. Mais uma vez, segundo moradores, a polícia usou a força e disparou balas de borracha para dispersar a multidão.
Detidos
Pelo menos 14 suspeitos pelos incêndios haviam sido detidos pela polícia até o fim da tarde de ontem - alguns menores de idade. A polícia chegou aos primeiros nomes após três deles darem entrada em hospitais da região com queimaduras no corpo. Eles teriam dito que haviam se queimado em um churrasco. "Fomos lá e começamos a perguntar. Onde foi? Cadê o churrasqueiro? Cadê a carne? Eles não souberam responder", diz o delegado da Seccional Norte, Cosmo Stikovics Filho. A polícia vai apurar quais deles se envolveram no incêndio do primeiro ônibus. Eles poderão ser indiciados pelos dois homicídios. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.