Polícia

"A farda intimida em uma negociação", diz capitão do BOE

Rogério Araújo de Souza falou sobre bastidores do cerco à joalheria em Porto Alegre

Gate ajudou no procedimento
Gate ajudou no procedimento Foto : Mauro Schaefer
Quando chegou em frente a joalheria na avenida Farrapos, na zona Norte de Porto Alegre, onde uma quadrilha manteve quatro reféns na manhã deste sábado, o negociador, capitão Rogério Araújo de Souza, do 1º Batalhão de Operações Especiais (BOE), estava à paisana. “A farda, em uma negociação, acaba intimidando quem queremos que se entregue”, ressaltou. Ele lembrou que os assaltantes não queriam a presença do Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate). Via de regra, os criminosos não gostam da presença dessa unidade de elite da Brigada Miliar (BM). No caso do assalto de hoje, os integrantes do Gate ficaram num local fora da visão dos criminosos.

Segundo Souza, que falou sobre os bastidores da negociação com os assaltantes, o momento mais tenso foi quando os criminosos concordaram em se render, porque os quatro queriam que os coletes à prova de balas fossem entregues dentro do estabelecimento comercial. Os assaltantes queriam que os coletes fossem entregues dentro da joalheria por temerem ser baleados, já que tinham alvejado o sargento Ricardo Luis Domingues Rodrigues, do 11º BPM. “Expliquei que não poderia fazer isso, que eles teriam uma vantagem maior, pois além das armas, ficariam dentro do prédio com os coletes”, contou o oficial.

As autoridades não aceitaram a exigência dos assaltantes. O material deveria ser colocado fora da loja. Prevaleceu a segunda opção. Experiente em negociações, o policial atuou junto ao major Francisco Vieira, negociador do caso do sequestro no bairro Guajuviras, em Canoas, há dois anos. Técnicas aprendidas para negociação, como a barganha, foram aplicadas. Esta tática, que consiste em fazer uma concessão em troca de outra, rendeu a liberação da primeira refém. “Falamos para eles, 'olha, nós fizemos a nossa parte, está aqui o que vocês pediram (a imprensa e os advogados)'”, reconstituiu o negociador do BOE. “Agora é a vez de vocês, precisamos da contrapartida”, disse o capitão.

Em negociações que envolvem reféns o clima tenso oscila muito, conforme Souza, e pode ir de uma tranquilidade aparente até a agressão verbal. Quando os quatro resolveram se entregar, o negociador fez questão de explicar passo a passo como seria o procedimento. Desta maneira, primeiro saíram os assaltantes, que ficaram na parede do lado direito do capitão. Depois foi a vez dos dois reféns que ainda estavam dentro da loja, que se dirigiram para o lado esquerdo.

Solteiro, Souza afirmou não ter nenhum ritual durante uma negociação, apenas se concentra o máximo nela. Porém, depois de terminado o trabalho, ele costuma ir para casa, tomar uma cerveja e escutar as músicas da pianista, cantora e compositora Norah Jones.

Joalheria foi invadida no início do expediente

Armada com cinco pistolas, uma submetralhadora e portando um radio comunicador, a quadrilha invadiu a joalheria por volta das 8h45min. Uma viatura da Brigada Militar (BM) estava nas proximidades e frustou o assalto no estabelecimento localizado na esquina da Farrapos com a rua Arabutã.

O trecho da Farrapos entre a avenida Sertório e a Cairu foi isolado para a negociação. Parentes e advogados dos criminosos foram chamados para auxiliar no procedimento, comandado pelo Batalhão de Operações Especiais da Brigada Militar (BOE). Os policiais levaram cinegrafistas e fotógrafos para acompanhar a rendição, por solicitação da quadrilha, a fim de assegurar a segurança dos integrantes. A liberação dos reféns foi realizada em troca de coletes a prova de balas.

Pouco depois do meio-dia, após mais de três horas de cerco policial, os criminosos libertaram os dois últimos reféns – o gerente e um balconista da joalheria – e se renderam. Uma funcionária já havia sido libertada.

Segundo a polícia, dois dos suspeitos foram identificados como os mesmos que participaram, na terça-feira, de um assalto a uma agência do Itaú na avenida Assis Brasil – um deles está foragido do sistema prisional há oito meses e outro há um mês. Um terceiro assaltante, com antecedentes por roubo e condenado a 23 anos de prisão, estava há cinco meses em liberdade condicional.

Os homens foram encaminhados ao Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) (Deic), mas seus advogados informaram que eles só falarão em juízo. O grupo foi levado até o Presídio Central, de onde parte para a Penitenciária Estadual do Jacuí – uma exigência durante a negociação com a polícia.

Polícia identifica e faz buscas a quinto suspeito de assalto

A polícia faz buscas a um quinto elemento da quadrilha que tentou assaltar uma joalheria na avenida Farrapos, na zona Norte de Porto Alegre, na manhã deste sábado. O suspeito teria ficado esperando os demais em um carro estacionado nas proximidades, conforme o titular da Delegacia de Roubos do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic), delegado Juliano Ferreira. O homem, que conseguiu fugir, foi identificado com ajuda do relato de testemunhas.

Governador visita policial baleado

O governador Tarso Genro visitou, na tarde deste sábado, o policial do 11º BPM, sargento Ricardo Luis Domingues Rodrigues, de 47 anos, baleado nas costas no confronto com a quadrilha. O oficial foi transferido do Hospital de Pronto Socorro (HPS) para o Hospital da Brigada Militar, onde está em estado estável, conforme a instituição.

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