Durante o ataque a faca à Escola Municipal de Ensino Fundamental Maria Nascimento Giacomazzi, em Estação, no norte do Estado, a perspicácia e o sangue frio de Luis Carlos dos Santos, popularmente conhecido como “tio Pelé", foram fundamentais para conter o agressor de 16 anos que entrou no local na manhã da última terça-feira, atacando duas salas de aula, no 5º e 3º anos, e evitar uma tragédia ainda maior.
Um menino, Vitor André Kungel Gambirazi, 9 anos, morreu, e outras três pessoas ficaram feridas, duas alunas de 8 anos e uma professora de 34 anos, todas ainda internadas em Erechim. Santos, de 56 anos, é o zelador da escola há quatro anos, portanto, conhece como poucos a rotina do local, e foi testemunha ocular dos fatos. Ele já prestou depoimento à Polícia Civil.
“Eu estava arrumando os brinquedos das crianças, porque o recreio começa 9h45min, e ele (agressor) veio. Disse que queria entregar um currículo. Entrou na portaria e a secretária atendeu ele. Depois, ele pediu para ir no banheiro, e foi. Continuei nos brinquedos. Quando vi, ele enveredou para a sala do 5º ano, estava com uma mochila nas costas, e ali estava a faca. Começou a querer executar as crianças. Corri, pulei e não deixei”, contou Santos, que, ao mesmo tempo, disse que gritou para as crianças evacuarem a sala e correrem para onde puderem. Nesta sala, o agressor teria atingido outras crianças, acrescentou, algo não oficialmente confirmado.
Luís Carlos dos Santos, monitor da Escola Municipal Maria Nascimento Giacomazzi, em Estação
Em seguida, o jovem se dirigiu ao 3º ano, cuja sala é próxima, agredindo a professora, porém ela conseguiu retirar os alunos das classes da frente. No entanto, prosseguiu o zelador, Vitor ficou nos fundos da sala, sem conseguir sair, momento no qual o agressor o encontrou. Santos seguiu gritando para cozinheiras, que até então não sabiam do episódio, pois estavam em uma sala fechada, segundo ele, para evacuarem também, assim como que houvesse a saída de alunos do maternal e de dois 4º anos nas salas da frente do colégio.
“Fui para os fundos da escola, onde tem um pátio grande, e comecei a pedir socorro, e um empresário, dono de uma oficina, me viu, chamou os funcionários dele e começou a agrupar a gente”, prosseguiu. Enquanto isso, o agressor, que ainda circulava pela instituição, começou a atirar rojões pelo chão, simulando tiros de arma de fogo. Após todos em segurança, Santos foi atrás do adolescente e contou que conseguiu imobilizá-lo por cerca de dez minutos, até a chegada das autoridades.
“Ele era miúdo, mas muito forte. Estava possuído. Você tem que ficar muito atento, porque ele pode tirar um revólver da mochila a qualquer momento, não se sabe o que tem dentro. Na hora da tensão, minha reação foi ter uma força muito grande”. Segundo o zelador, existe um treinamento contra ataques do tipo, realizado há cerca de três anos junto à Polícia Civil e à Brigada Militar com zeladores de todos os colégios do município. “Minha única tristeza é não consegui salvar aquele guri (Vitor), mas, graças a Deus, as outras estão fora de risco. A gente tem que morrer pelas crianças, se doar por elas”, encerra.
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