Vítimas e voluntários das enchentes de 2024 foram homenageados na manhã deste sábado, quando dezenas de manifestantes percorreram ruas e avenidas na área central de Porto Alegre, em ato alusivo aos dois anos da mais profunda catástrofe climática e ambiental já registrada em território gaúcho. Sob o título “Caminhada das Flores”, a mobilização teve caráter preventivo, cobrando medidas do poder público contra eventuais riscos de outro dilúvio.
De acordo com o Coletivo Poa Inquieta, à frente da manifestação, a ideia o objetivo foi evitar o apagamento e a normalização da tragédia climática, por meio de um apelo poético rumo à construção de um Rio Grande do Sul com maior resiliência e preparo no futuro. No ano passado, a primeira edição da passeata ocorreu no dia 3 de maio, em simbolismo à data em que a Capital atingiu o nível de inundação mais elevado, com o Guaíba em 4,77 metros, ultrapassando os 4,76 metros da aferição na enchente de 1941.
Por volta das 9h30min, os participantes ostentavam faixas e cartazes no entorno do Paço Municipal, no Centro Histórico. Reunidos na escadaria do local, entoaram a canção “Horizontes”, composta por Flávio Bicca Rocha para a peça Bailei na Curva, em 1983, e que, no ano seguinte, com a interpretação de Elaine Geissler, acabou virando quase um hino da Capital.
O trajeto começou pouco após às 10h10min, seguindo na avenida Mauá, com destino à Usina do Gasômetro, totalizando aproximadamente três quilômetros. Ali, foram depositadas flores aos pés do Monumento aos Heróis Voluntários, no trecho 1 da Orla. A escultura tem 4,5 toneladas, seis metros de comprimento por dois metros de largura e quatro metros de altura, sendo feita em parceria entre Federasul e Associação Comercial de Porto Alegre (ACPA), com desenho do artista plástico Ricardo Cardoso. Também foi instalada uma placa que em agradecimento à solidariedade dos envolvidos nos resgates.
“Prestamos uma homenagem aos voluntários, que salvaram vidas e mudaram aquele quadro, transformando uma realidade horrendo em demonstração de união. Também prestamos solidariedade às vítimas, que até hoje guardam inúmeras marcas, por dentro e por fora. Que a gente não deixe acontecer de novo. Sei que a natureza ninguém controla, mas que estejamos prontos para agir e cobrar prevenção, que é o que nos cabe, enquanto cidadãos”, destacou o jornalista André Furtado, um dos articuladores do movimento.
O coletivo POA Inquieta realiza a segunda edição da Caminhada das Flores
Para Furtado, fez-se um ato de cidadania, para que desastres do tipo não se repitam. Segundo ele, a ideia é promover anualmente atos em memória às perdas da enchente e ao reconhecimento dos voluntários, unindo gaúchos através da solidariedade.
"A estrutura que foi montada na união da população não pode ser esquecida ou subestimada. Que a cada maio a gente lembre que esse sentimento existe e salva vidas. Nossa caminhada foi suprapartidário e silenciosa, porque o silêncio as vezes fala muito. Fez-se um ato de cidadania, para que não se viva novamente catástrofe igual. Devolver à natureza o que tiramos demora algum tempo, em especial com o descaso ainda comum, mas temos as ferramentas para prever e prevenir. Que todos os anos a gente lembre da importância de estarmos em alerta”, desatacou o jornalista.
O Coletivo POA Inquieta tem como propósito unir pessoas que buscam a transformação social da cidade. Durante as enchentes de 2024, atuou por meio de projetos para amenizar os traumas das vítimas. Uma dessas iniciativas foi a “Escuta que faz bem”, no qual mil pessoas foram atendidas em tendas montadas em diversos pontos da Capital e Região Metropolitana.
As escutas tiveram como base a experiência do coletivo em Medellin, na Colômbia, onde os ativistas observaram políticas voltadas para inclusão social, visão de longo prazo na gestão pública, senso de comunidade e outras ações que podem ajudar a transformação da capital gaúcha. Ali, nas tendas, conhecidas como “escuchaderos”, os voluntários faziam o acolhimento de pessoas, ouvindo seus desabafos e angustias. Em Porto Alegre e região, mais de 80 “escutadores” participaram desse movimento.
"A gente percebeu que as vítimas das enchentes precisavam de alguém para ouvir seus desabafos. Todos estavam traumatizados com a catástrofe, então começamos esse trabalho de atenção, e a partir dessa conversa surgiu o desejo de fazer uma homenagem, um marco do impacto da enchente na Capital. Desta ideia nasceu a Caminhada das Flores”, explicou André Furtado.
Para Furtado, embora as temáticas sobre reconstrução e prevenção estejam presentes na agenda do poder público, os avanços na infraestrutura urbana seguem aquém do necessário. Na visão dele, as consequências do dilúvio são sociais e estruturais, tornando premente o alerta constante ao problema, visando uma Porto Alegre mais preparada no enfrentamento de eventos extremos.
"Não acredito que a população vá esquecer do que passou nas enchentes. Isso é um sentimento, é algo que já está registrado no emocional de cada um de nós. O risco está no esmorecimento da continuidade de ações na infraestrutura. Não podemos deixar que isso fique somente em discursos, precisamos de ações práticas. Após dois anos das enchentes, ainda carecemos de condições reais para resistir às cheias”, apontou o ativista.