Ocorre, nesta quinta-feira, o julgamento do último dos dez acusados por espancar e matar o adolescente Ronei Faleiro Júnior, de 17 anos, em agosto de 2015, na saída de uma festa em Charqueadas. O Tribunal de Júri teve início às 9h47, no plenário do Foro da Comarca do município na região Carbonífera. Os outros nove réus foram condenados, em 2022, a penas que variam de 35 a 41 anos de prisão. Além deles quatro adolescentes envolvidos no crime começaram a cumprir medidas socioeducativas de internação em 2015, após uma decisão judicial.
O júri é presidido pela juíza de direito Flávia Paese Vaz Ribeiro Vanoni, titular da Vara Criminal da Comarca de Charqueadas. O Conselho de Sentença é formado por três mulheres e quatro homens.
O réu responde pelo homicídio triplamente qualificado de Ronei Jr e pelas tentativas de matar outras três pessoas, sendo o pai do adolescente e um casal de amigos, que estavam junto a ele no momento do ataque. Por ter sido denunciado depois dos demais acusados, ele acabou respondendo em um processo separado dos outros.
O primeiro a falar foi o engenheiro Ronei Faleiro, pai do jovem assassinado. Ele relembrou o dia do ataque, quando ao local da festa para buscar o filho e os dois amigos, mas acabou tendo o veículo cercado por agressores no momento em que os passageiros embarcavam. De acordo com o relato, cerca de 15 pessoas, entre adultos e adolescentes, desferiram socos, chutes e garrafadas contra as vítimas.
Durante o depoimento, o homem se emocionou e caiu em prantos em diversos momentos. “O quarto dele [Ronei Jr] ainda está montado, para que a gente entre e se iluda até o último dia que andarmos nessa terra. Quando uma situação dessas ocorre por uma doença ou um acidente, ao menos há uma justificativa. Acontece que após alguém ceifar a vida de um adolescente, que dizíamos que iria cuidar da gente na velhice, não há mais vida. A gente simplesmente amanhece, trabalha e dorme. Desde então, não tenho uma noite de descanso", lamentou.
A segunda oitiva foi da vítima Francielli Wienke, amiga do jovem, que estava no carro quando foram agredidos. Ela destacou o momento exato que em ouviu um comando de voz, na saída da festa. “Tinha muita gente na escada e na rua. Senti uma coisa ruim, e disse: Richard temos que correr””. Ao relembrar, a vítima emocionou-se: “Lembro que busquei me defender com uma garrafa dentro do carro. A gente conseguiu entrar, mas o Júnior foi puxado para a calçada. As garrafas eram arremessadas, via eles batendo no vidro, a porta se abrindo e o pai do Ronei Jr. do lado de fora. Depois que conseguimos escapar, lembro do Jr. sangrando muito e a gente indo para o hospital”. Referente as agressões, a vítima acredita que eram mais de dez envolvidos.
Ex-morador da cidade vizinha, São Jerônimo, e atualmente residindo em Santa Catarina, Richard Saraiva de Almeida foi a terceira e última vítima a ser ouvida de forma virtual. Os depoimentos dele e de Francielli não foram transmitidos pela internet e o réu foi retirado do plenário. Ao ser perguntado sobre as circunstâncias do crime, Richard recordou do primeiro soco que levou já na escadaria da festa e a movimentação em massa. “Recebi as primeiras agressões e corri com a Francielli para o carro. Lembro que entrei de costas, já puxando o Ronei Jr. comigo. Nessa tentativa de escapar das agressões, peguei o Ronei Jr. pelo pescoço e puxei novamente para dentro. Era um “puxa-puxa”; eles tentando colocar ele para fora e eu puxando para dentro. Ele já estava sendo agredido. Quanto entrou no carro, vi que estava machucado. Tirei minha camisa para estancar o sangue. Das cenas (pois foi tudo muito rápido), lembro nitidamente de três que me cercaram”, disse Richard.
O quarto a testemunhar foi o delegado Rodrigo Machado Reis, responsável pelo inquérito do crime. Ele destacou que o décimo réu, assim como os outros nove, fazia parte de uma gangue chamada Bonde da Aba Reta, que tinha rixa com moradores de São Jerônimo, município que faz divisa com Charqueadas. De acordo com o Ministério Público, a motivação do crime foi porque o amigo de Ronei JR era natural do município vizinho.
"Os réus estavam postados de uma forma organizada, na saída da festa, esperando o momento certo para atacar. Era um grupo que praticava esse tipo de ato em outras festas. Era uma conduta reiterada”, afirmou o delegado.