O cerco de 38 horas ininterruptas da Brigada Militar para capturar uma quadrilha de assaltantes na Serra terminou em confronto com três criminosos mortos dos quais um era integrante da própria corporação. Houve ainda quatro prisões, sendo uma delas também de um brigadiano. A caçada à quadrilha começou na tarde de terça-feira passada quando duas residências foram assaltadas na localidade de Mato Perso, no interior de Flores de Cunha. Os moradores foram mantidos reféns por quatro indivíduos que usavam fardamento da BM e mostraram um falso mandato judicial de busca e apreensão.
Após saquearem as moradias e levarem mais de R$ 540 mil em dinheiro e cinco espingardas, entre outros pertences, o bando fortemente armado fugiu em um Toyota Corolla e em um Ford Ka. Uma das vítimas do roubo foi junto mas libertada depois. Um Chevrolet Corsa Sedan apareceu incendiado. Em uma rápida mobilização, a BM cercou toda a região. Pressionada e já perseguida por uma viatura a partir da rótula da BR 116 com ERS 452, na localidade de Vila Cristina, em Caxias do Sul, a quadrilha teve de abandonar em seguida o Toyota Corolla perto de uma tenda de produtos coloniais na mesma rodovia, já em Nova Petrópolis. O veículo tinha placas de Alvorada.
Dentro do carro, os policiais militares apreenderam dez espingardas calibres 12, 28 e 36 incluindo as cinco roubadas das residências; 393 cartuchos de munição; e três bonés da BM; um bloqueador de sinal; um radiocomunicador; um par de algemas; um pé-de-cabra; uma marreta; quatro facas; um facão; um pote contendo 15 miguelitos; quatro mochilas; nove bolsas de diversos tamanhos; uma capa de colete balístico; e oito cartucheiras. Houve ainda a recuperação do que havia sido roubado, como R$ 548.250,35 em dinheiro; 102 joias e bijuterias; 11 apitos de caça; um cheque no valor de R$ 2 mil; e um cofre; entre outros objetos das vítimas.
Mobilização conjunta
As buscas aos bandidos foram concentradas então nos matagais próximos, sendo mobilizados em torno de 70 policiais militares. Os efetivos do 1ºBPAT, 36ºBPM, 12ºBPM, Grupo de Ações Táticas Especiais (GATE) do 1ºBOE, Batalhão de Aviação e Força Gaúcha de Pronta Resposta, além dos serviços de inteligência, ocuparam e vasculharam desde então toda a área na certeza de que os ladrões encontravam-se refugiados nos matos. Na tarde de quarta-feira, um dos bandidos foi avistado em Linha Temerária, na localidade de São José do Caí, em Nova Petrópolis. Ele manteve uma família refém em uma propriedade.
No início da noite, o indivíduo, com uma pistola, decidiu escapar do local e acabou confrontando-se com os policiais militares, sendo baleado e morto. No final da noite, outros dois assaltantes saíram de um matagal, perto da ponte do Rio Caí, na BR 116. Houve então confronto com os policiais militares, sendo morta a dupla que portava pistolas e coletes balísticos. Um dos mortos foi identificado como brigadiano. Ao mesmo tempo, duas mulheres e um homem, que auxiliariam no resgate dos ladrões, foram detidos na estrada em um Fiat Uno Vivare. Outro brigadiano, em um Fiat Palio, também foi detido e admitiu a participação no auxílio aos assaltantes.
“A BM não tolera criminoso nas suas fileiras”
No final da manhã desta quinta-feira, a Brigada Militar realizou uma coletiva de imprensa na sede do Comando Geral da BM em Porto Alegre. “Mais uma vez a BM deu uma resposta ao crime. Evidencia-se a violência dessa quadrilha por ocasião do assalto e também pela gravidade devido à participação de policiais militares que juraram defender a sociedade gaúcha no cumprimento do seu dever. A BM não abrirá mão de cumprir seu dever e depurar os quadros de seu efetivo tantas vezes quanto for necessário”, declarou o corregedor geral da instituição, coronel Carlos Armindo Thomé Marques.
“Esse soldado que foi preso está de imediato afastado de suas funções e aplicaremos a lei penal militar”, garantiu, acrescentando que será determinada a expulsão do mesmo da corporação. “A BM não tolera criminoso nas suas fileiras”, frisou. “Ele deveria defender a sociedade e não praticar o crime. Para ele daremos o remédio que é a lei. Todo o rigor da nossa legislação penal militar será aplicada. A expulsão e consequente prisão dele se fazem inteiramente necessárias”, concluiu Marques.
Responsável pelo Comando Regional de Policiamento Ostensivo da Serra (CRPO Serra), o coronel Ricardo Fraga Cardoso destacou a “resposta firme, forte e rápida à ação criminosa graças ao planejamento estratégico que tem sido realizado pela corporação”. O oficial lamentou o envolvimento de brigadianos com o crime. “Cada um opta pelo caminho que vai seguir: o caminho do bem ou do mal”, afirmou.
Já o comandante do 1° Batalhão de Policiamento em Áreas Turísticas da BM (1ºBPAT), tenente-coronel Gilson Wagner de Oliveira Alves, enfatizou que o desfecho da ocorrência “não é o que gostamos e queremos”. Ele detalhou o cerco e a operação de buscas à quadrilha. “Em uma das patrulhas, batemos na porta da casa de um morador e, na conversa, ele disse que estava refém e um bandido estava lá dentro com o filho dele, um bebê. Não invadimos a casa e criamos uma estratégia afastada do local. Nesse meio tempo, o bandido fugiu por trás da casa em direção aos matos. Fizemos uma varredura no sítio e não achamos nada. Soubemos que a quadrilha separou-se e dividimos as equipes. Ao anoitecer, o indivíduo que fez a família refém resolveu sair do mato e correu com armamento na mão e disparou contra a guarnição. Ele faleceu no local. A pistola dele engasgou”, lembrou.
Momentos depois, recordou o tenente-coronel Gilson Wagner de Oliveira Alves, os outros dois assaltantes deixaram o matagal na beira da BR 116 e tirotearam com os policiais militares, sendo também atingidos e mortos. Um deles era brigadiano. “Ele trabalhava no meu batalhão”, constatou. Ao mesmo tempo, um Fiat Uno, com as duas mulheres e o homem, vindos de Alvorada, foi visto evadindo-se da área, mas foi abordado seis quilômetros depois.
Um Fiat Palio foi também abordado na mesma rodovia quase simultaneamente com um outro brigadiano de Alvorada, que admitiu que resgataria a dupla. Após os depoimentos da Polícia Civil, os quatro que efetuariam o resgate acabariam sendo soltos para responderem em liberdade. O comandante do 1ºBPAT observou que, durante os confrontos, a BR 116 foi bloqueada em um perímetro de cerca de cinco quilômetros por medida de segurança. O tenente-coronel Gilson Wagner de Oliveira Alves não descartou que os brigadianos envolvidos no crime estivessem monitorando parcialmente as comunicações da corporação. “Isso pode ter acontecido”, assinalou.
O brigadiano que morreu e o que foi detido estavam em licença médica sob alegação de problemas psiquiátricos. Na manhã desta quinta-feira circulavam informações de que uma das mulheres detidas seria esposa de um outro brigadiano que poderia ser o quarto assaltante e possível condutor do Ford Ka. Os rumores apontam ainda o envolvimento desses brigadianos com uma facção criminosa. Sem comentar as informações que circulam nas redes sociais, o corregedor geral da instituição, coronel Carlos Armindo Thomé Marques, confirmou que “tudo está sob investigação”.
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