O Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) fará uma coletiva às 14h30min desta segunda-feira para falar sobre as investigações que levaram à conclusão da razão da morte do ex-secretário da Saúde de Porto Alegre Eliseu Santos. A Polícia Civil continua reafirmando que a motivação para o crime, ocorrido em fevereiro, tenha sido latrocínio. Mas na quinta-feira, o Ministério Público denunciou oito pessoas por participação no assassinato do político. O MP acredita na hipótese de execução por vingança.
A partir do meio-dia, ocorre a entrevista coletiva dos promotores Lúcia Helena Callegari, Eugênio Paes Amorim, Jorge Alberto dos Santos Alfaya e André Gonçalves Martinez, da 1ª Vara do Tribunal do Júri da Capital. Eles devem explicar, entre outras questões, se houve envolvimento no crime do policial civil Sylvio Edmundo dos Santos e do chefe de investigações da Delegacia de Homicídios, Pedro Diniz. Na denúncia oferecida contra oito pessoas pela morte de Eliseu Santos, que teria sido encomendada segundo os promotores, Sylvio Edmundo é testemunha. Ele afirma que Jorge Renato Hordoff de Mello e Marcelo Machado Pio, denunciados como dois dos três mandantes do crime e que são ligados à empresa Reação, eram seus informantes em outras investigações e ligaram para ele na madrugada do crime para justificar em que local estavam.
Já Pedro Diniz é marido da ex-mulher de Jorge Renato de Mello. Na sexta-feira, o chefe de Polícia no Rio Grande do Sul, delegado João Paulo Martins, afirmou que Diniz não deveria ter participado da investigação por ter ligação com os envolvidos, e espera a manifestação do Ministério Público para definir se abrirá uma sindicância. Com exclusividade à Rádio Guaíba, o promotor Eugênio Paes Amorin adianta que não houve prevaricação (quando um servidor deixa de cumprir suas tarefas por algum interesse pessoal) por parte da Polícia Civil. “Não tem nada de prevaricação, pelo menos da Polícia Civil, como instituição. A Civil só apressou, e quem apressa, erra”, ressalta.
João Paulo Martins, no entanto, não afasta a hipótese de que tenha ocorrido prevaricação. “Nós não temos indicativo algum de que tenha havido prevaricação, mas não afastamos essa hipótese, vamos estar atentos a ela”, analisa. O Ministério Público espera os extratos telefônicos dos sete denunciados por homicídio para garantir a ligação entre eles. É possível, também, que apareçam as ligações feitas pelos representantes da empresa Reação ao policial Sylvio Edmundo. Em depoimento, Sylvio Edmundo também referiu que o ex-assessor jurídico da Saúde Marco Antônio Bernardes, denunciado por ser o terceiro mandante do crime, era conhecido na Polícia Civil por ser advogado de integrantes da quadrilha de traficantes do “Cris da Bom Jesus”. O advogado dele, Marco Stefani, nega que ele tenha qualquer ligação com o tráfico. “A única vinculação que meu cliente tem com essa região é que ele foi conselheiro tutelar, a esposa dele é conselheira tutelar, não há nada que o vincule a quadrilhas, a traficantes”, reitera.
Bernardes teve um pedido de habeas corpus negado no sábado. A defesa irá esperar a coletiva de imprensa do MP para depois ter acesso às provas e montar novo pedido de liberdade. O Ministério Público deverá mostrar, também, as divergências entre o inquérito produzido pela promotoria e o entregue pela Delegacia de Homicídios à Justiça no início de março. A tese da Polícia Civil é que a morte foi decorrente de uma tentativa frustrada de roubo. Foram indiciadas três pessoas, integrantes de uma quadrilha de roubo a carro. Eliseu Pompeu Gomes, de 22 anos, é acusado de ser o autor dos disparos, e deixou cair sangue no local do crime. Ele foi apontado por um servidor da Secretaria da Saúde como um segurança que estava com os dois membros da empresa Reação quando foi ameaçado, devido ao final do contrato ocasionado por denúncias de pagamento de propina.
Com Gomes, estavam Fernando Júnior Treib Kroll, o Alemão, e o motorista dos dois foi Robinson Teixeira dos Santos. Mas as imagens das câmeras de vigilância do supermercado da rua Hoffman, no bairro Floresta, onde ocorreu o crime, mostram uma quarta pessoa. O homem está à espreita, e quando iniciam os tiros, corre para junto do local e leva à mão para trás e para a esquerda, em um movimento de sacar uma arma. Por não aparecer com uma arma ou mesmo atirando, a polícia não o indiciou. No entanto, o Ministério Público aponta o homem como sendo Marcelo Dias Souza, integrante da quadrilha de roubo a carros, morador de Sapucaia do Sul, onde moram os outros dois denunciados. Além disso, Janine Ferri Bitello, cunhada de Marcelo, socorreu Eliseu Pompeu Gomes depois de ser ferido, e o escondeu na casa dela. Mas, o chefe de polícia, delegado João Paulo Martins, vê em tudo isso uma coincidência. “Então eu não posso ter um cunhado bandido que eu vou ser indiciado toda a vez que ele praticar um delito? Eu respeito o entendimento do Ministério Público e só quero que respeitem o do delegado, que entendeu em não indiciar”, rebate. Dos oito denunciados, seis estão presos. Janine não teve prisão preventiva decretada, e Robinson Teixeira dos Santos permanece foragido. A polícia militar ou civil não está realizando buscas específicas ao suspeito.
Deic deve reafirmar tese de latrocínio no caso Eliseu Santos em coletiva
MP discorda das conclusões da Polícia Civil