"Guris inexperientes". Essa foi a classificação do delegado titular da Delegacia de Homicídios da Polícia Civil, Bolívar Llantada, para os assassinos do ex-secretário de Saúde de Porto Alegre Eliseu Santos. Ele defendeu, em entrevista coletiva na tarde desta segunda-feira, os pontos que levaram a Polícia Civil a acreditar na hipótese de latrocínio. Segundo Llantada, há pelo menos 10 fatores que apontam para o roubo seguido de morte. O delegado reforçou a tese da inexperiência dos criminosos, uma vez que eles teriam sido supreendidos e baleados por Eliseu.
De acordo com o delegado, testemunhas relataram que o secretário não costumava ir a cultos religiosos na sexta-feira, e sim nas quartas e domingos, o que reforçaria a tese de que a escolha da vítima foi aleatória. "Se fosse um crime planejado, teria havido investigação preliminar da vítima", destacou. Llantada citou também que, se o crime fosse por encomenda, os bandidos não teriam deixado uma testemunha - a esposa do secretário - sem matá-la. Nenhuma testemunha, tampouco, teria afirmado que Eliseu sofria ameaças.
Roubo a veículos
Já o delegado Heliomar Franco, da Delegacia de Furtos e Roubos de Veículos, explicou que, entre 26 de janeiro e 26 de fevereiro (data do crime), 85 veículos foram roubados no bairro Floresta, o que representa aproximadamente 18% dos roubos de carros em toda a Capital no período. Desses, dois roubos aconteceram próximo ao local do crime – de um Vectra e uma Ecosport.
Franco afirmou ainda que, quando o suspeito Fernando Treib Kroll, o Alemão, foi detido, ele relatou que estava com outros dois homens na região à procura de vítimas. Eliseu foi escolhido, segundo Kroll, por estar em uma situação de fragilidade – com a mulher e filha.
Polícia X Ministério Público
Demonstrando profundo descontentamento com a tomada de frente do Ministério Público nas investigações da morte de Eliseu Santos, o delegado Bolívar Llantada e demais autoridades do Deic e da Homicídios deram um tom de desabafo à coletiva desta tarde. "Tudo que o MP tem em mãos foi produzido pela Polícia Civil, então não podemos aceitar que tirem nossa credibilidade", disse Llantada. O delegado declarou que a polícia "sujou as unhas de barro" para investigar o caso.
Llantada usou uma frase do ministro da Propaganda Nazista Joseph Goebbels para critiicar o MP: "uma mentira, quando contada mil vezes, se torna verdade".
Já o diretor do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic), Ranolfo Vieira Jr., acredita que parte dos denunciados pelo Ministério Público podem ser inocentes. "Há pessoas presas que não têm ligação alguma com a cena do crime", afirmou. Segundo ele, o MP atropelou, desde o começo, os trabalhos ao decretar sigilo nas investigações da morte do ex-secretário. “Cabe somente à autoridade que preside a autorização, ou seja, a polícia, fazer as investigações", afirmou.
O delegado afirmou ainda que o MP já pressionava, desde o começo, para que a polícia não seguisse a linha investigativa de latrocínio. "Se alguém se apaixonou por alguma tese investigativa, sinto muito. Nós, em nenhum momento, nos apaixonamos por essa ou aquela vertente", completou.
Ranolfo ainda foi irônico ao afirmar que o Ministério Público estava sofrendo da "síndrome de Cembranelli", ao referir-se ao promotor Francisco Cembranelli, que acusou Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá da morte da menina Isabella Nardoni.
O diretor da Área Judiciária, Alexandre Vieira, completou afirmando que a conduta do MP não encontra guarida em todo o Ministério. “O MP não é unanime nessa posição, há descontentamentos lá”, afirmou. “Fiquei amargurado nesse feriado quando soube dessa história. Hoje estou com a alma lavada. Estou vendo policiais jovens reagindo a uma injusta agressão”, completou, se referindo à interferência do órgão nas investigações.
Denúncia
A promotora da 1ª Vara do Júri do Ministério Público, Lúcia Callegari, denunciou um grupo de oito pessoas pela morte de Eliseu Santos, sete delas por homicídio. O MP acredita que o crime tenha sido encomendado. No mês passado, um inquérito da Polícia Civil concluiu que o crime foi latrocínio (roubo seguido de morte) e descartou a hipótese de execução.
Em entrevista coletiva, também na tarde desta segunda-feira, Callegari explicou a tese do MP e apontou que a polícia teria se precipitado na investigação da morte de Eliseu Santos. “Se esperassem mais um dia, se ouvissem os funcionários (a conclusão poderia ter sido diferente)”, disse.
Eliseu Santos, de 63 anos, foi assassinado em 26 de fevereiro em Porto Alegre. O ex-secretário da Saúde entrava em seu veículo após deixar um culto religioso, acompanhado da mulher e da filha. Segundo testemunhas, ele foi abordado por um grupo de criminosos em um Vectra preto. Santos estava armado e trocou tiros com os bandidos.
Delegado: assassinos de Eliseu eram "guris inexperientes"
Em entrevista coletiva, polícia mantém convicção de que houve latrocínio na morte do ex-secretário